 
A Noite do Casamento - Helen Brooks
Sabrina Cegonha 40

Um sonho... 1 desiluso! Foi um casamento de sonho, seguido de 1 noite de inesquecvel paixo. Ento, Vitria descobriu que seu marido, o homem a quem ela adorava, a trara horas aps o casamento! Decidida, ela pegou suas coisas e partiu. Zac Harding no permitiria que Vitria o deixasse. Estava determinado a encontr-la e traz-la de volta. S que quando a encontrou, ficou chocado ao descobrir que ela tinha 1 segredo que Desesperadamente tentava esconder: a noite de npcias deles resultara numa gravidez. Ela teria 1 bebe!

Ttulo: A noite do casamento  Autor: Helen Brooks
Ttulo original: The baby secret  Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1999
Gnero: Romance contemporneo  

Digitalizao e correo: Nina  Estado da Obra: Corrigida
CAPITULO I

O exame mdico no foi to desagradvel quanto Vitria esperava que fosse. O desconforto que sentia devia-se  tenso". Respirou aliviada quando terminou.
	Pode se vestir, srta. Brown  avisou o mdico, sorrindo gentilmente.
	Obrigada.
Vitria vestiu-se e sentou-se para o trmino da consulta. O brilhante sol tunisiano l fora contrastava com sua ansiedade.
O mdico, um homem de uns quarenta anos, com olhos e cabelos castanhos, a fitou e sorriu.
	Como tem se sentido ultimamente?  indagou com um forte sotaque estrangeiro.
Vitria o fitou, com uma expresso apreensiva nos vvidos olhos azuis.
	No muito bem... sinto nuseas, tontura e cansao, e ultimamente isso tem piorado.
	Entendo.  O mdico pigarreou e a apreenso em Vitria aumentou. Ele mexeu nos papis sobre a mesa antes de erguer os olhos e acrescentar:  Sua sade  perfeita. Meus parabns, a senhorita est grvida.
Vitria o encarou, boquiaberta.
	Grvida?  Ela o fitou, confusa.  No pode ser verdade!
	Faremos um teste de gravidez, claro. S para confirmar  avisou o dr. Fenez, gentilmente.  Mas no h dvida alguma. A senhorita est grvida, e de doze a quatorze semanas.  compreensvel que no tenha percebido. Acontece na primeira gravidez. O corpo demora para ajustar-se ao novo papel. Presumo que seja a sua primeira vez.
Vitria assentiu, a mente rodando. Gravidez? Sua primeira gravidez? Havia considerado vrias possibilidades naquelas ltimas semanas, como tenso nervosa, estresse, depresso, mas jamais aquilo! Eles s estiveram juntos uma vez. No podia ser! No podia!
	Dr. Fenez?  possvel algum engravidar na primeira vez em que...
	Claro  o mdico assentiu, surpreso diante da reao da bela jovem.
No que fosse a primeira vez que isso acontecia. Vira muitas coisas estranhas em sua longa e variada carreira, especialmente na ltima dcada. Mas aquela moa, de algum modo, era diferente. No parecia ser do tipo que se descuidava.
O teste confirmou o diagnstico. Vitria, definitivamente, estava grvida, e de pelos menos trs meses.
O sol estava alto no cu azul-safira quando ela saiu do edifcio naquele dia quente de vero tuni-siano. Parou por um instante e olhou em torno, sem nada enxergar, enquanto tentava coordenar os pensamentos. Estava grvida. Iria ter um filho de Zac!
Devia se sentir horrorizada, desesperada, pensou, ao comear a caminhar lentamente pela calada. Mas estava apenas perplexa... e deleitada. Parou e olhou para o cu azul enquanto analisava o prprio corao. O filho de Zac. Aquele beb seria tudo o que restara de um grande amor.
Ela no havia notado que chorava at que o sol secou-lhe as lgrimas. Apertou o passo. Queria chegar em casa o mais rpido possvel.
A casa estava escura e sombria quando Vitria entrou, o piso de cermica frio sob seus ps. En-caminhou-se  cozinha.
Ao chegar ali, algumas semanas atrs, sentia-se como uma fera ferida procurando um lugar para se esconder e curar as feridas, pensou, servindo-se de um copo da limonada que mantinha na geladeira. Aquela casa, com o adorvel jardim florido, cercada por eucaliptos, laranjeiras, limoeiros e palmeiras era um blsamo para sua alma. Teria enlouquecido se tivesse que permanecer mais um dia na Inglaterra.
Tomou a limonada refrescante e serviu-se de mais um copo. Levou-o para a sala de estar e abriu as portas que davam para o terrao antes de sentar-se perto da janela, seu lugar favorito. O jardim era quente demais para sua pele clara e delicada, mesmo  sombra. Costumava sentar-se ali durante horas, observando os canteiros floridos, pensando nos ltimos meses, no turbilho em que se transformara sua vida desde que conhecera Zac Harding.
Mudou de posio na cadeira quando a cibra que vinha sentindo nas pernas atacou-a. Sua mente estava entorpecida. Ser que algum era capaz de suportar tanta mgoa e sofrimento sem perder a sanidade? Toda vez que se lembrava de Zac e Gina juntos achava que ia enlouquecer.
Fechou os olhos, mas a figura dele continuou em sua mente: alto, magro, cabelos e olhos escuros, rosto msculo e um magnetismo devastador.
Eles se conheceram em meio a um salo lotado. No minuto em que seus olhos se encontraram Vitria soube que jamais encontraria outro homem que lhe despertasse emoes to intensas. No era somente pela aparncia magnfica ou pela aura de riqueza, poder e sofisticao que o cercava. Teria resistido a isso. Vinha de um meio privilegiado e conhecia pessoas to ricas e influentes quanto ele. Zac, no entanto, era diferente. Seu magnetismo, sua. sensualidade eram letais para a paz de esprito de qualquer mulher que se acercasse.
Ento, ele se aproximou e lhe disse que era especial. Tola, Vitria acreditou. Como pudera ser to ingnua, to confiante?
E no fora por falta de aviso. Amigos a alertaram, alegaram que no devia acreditar que aquele homem fosse capaz de um dia decidir-se por uma mulher e acomodar-se. E, no final, ficou provado que todos estavam certos, menos ela.
Uma forte batida  porta arrancou-a dos devaneios. Nos dois meses em que morava naquela casa, Vitria no recebera nenhuma visita alm da de William Howard, o proprietrio, um velho e querido amigo. William viera uma ou das vezes da Inglaterra apenas para certificar-se de que ela estava bem. Havia lhe oferecido a casa nos primeiros dias negros aps o rompimento com Zac, e Vitria aceitara, agradecida.
Por uma questo de princpios, ela fez questo de pagar pela estadia em Mimosa, o nome da moradia. Fora batizada assim por causa das rvores que a cercavam e que floresciam nos meses de fevereiro e maro, colorindo inteiramente a paisagem. Os pais de William viriam no final de junho, para passar frias. Assim, ela teria apenas mais alguns dias naquele santurio.
Vinha temendo a volta para casa e o sofrimento que isso acarretaria. A caminho da porta, por um breve instante, pousou a mo sobre o ventre. Agora havia uma razo para ser forte, para superar a dor e concentrar-se no futuro. E faria isso sozinha. Forjaria o prprio destino e construiria um lar para si e para o beb.
Hesitou um instante antes de abrir a porta. Daria o mundo para no ter sido diferente.
	Vitria?
Era Zac. Reconheceria aquela voz entre milhares de outras. Teve a impresso de que seu corao saltaria pela boca. No foi capaz de responder, de se mover, e tentou adivinhar, por um instante, se a presena dele ali no passava de fruto de sua imaginao.
	Posso entrar?  insistiu ele. Inclinou a cabea em direo  rua.  Faz um calor infernal aqui fora.
Vitria ainda no conseguia falar. Enquanto o observava, comeou a suspeitar que perderia os sentidos. Em seguida mergulhou num tnel escuro.
Quando recobrou a conscincia, notou que se encontrava deitada no sof na sala de estar. Abriu os olhos e viu Zac.
	Aposto como voc no tem se alimentado adequadamente. Notei que perdeu uns bons quilos  disse ele, num tom de censura.
Era muita emoo de uma vez s. Vitria ficou sem saber se devia rir ou chorar.
	O que esperava? Sou apenas humana. No posso lidar com as minhas emoes como se fossem lmpadas que ligo e desligo  vontade.
	E voc acha que eu sou capaz de fazer isso? perguntou ele, uma expresso ameaadora.
Vitria, porm, no se deixaria intimidar. No agora, nunca mais, concluiu ela, enquanto tentava sentar-se no sof. Zac levantou-se.
	E no ?  retrucou. Ento, quando todo o horror da prpria situao lhe ocorreu, acrescentou, os lbios trmulos mas o queixo erguido, em desafio:  Afinal, o que veio fazer aqui?
Ele deu de ombros com indiferena.
	Nada em especial... Passei por perto e resolvi vir v-la  disse ele, com o sarcasmo de sempre.
	No era para voc saber...  A voz lhe faltou, enquanto o olhar penetrante parecia atingir-lhe o fundo da alma.
	Onde estava escondida? Devia saber que cedo ou tarde eu descobriria... Est se sentindo melhor?
	Melhor? Eu?  Por um instante as feies delicadas espelharam desespero e confuso. Vitria chegou a julgar que ele se referia ao beb.  Oh, sim, estou bem melhor... Foi o calor.
	Tem certeza?  O divertimento na voz profunda e o brilho nos olhos escuros eram uma combinao fatal.  Est to magra que d a impresso de que uma lufada de vento seria capaz de sopr-la para longe.
	O fato de eu ter emagrecido ou engordado no  da sua conta. E agora que voc j espalhou tanto calor e ternura por aqui, pode ir embora. No me lembro de t-lo convidado a entrar.
	Preferia que eu a tivesse deixado cada  soleira?
	Preferia sim!  Ento, quando as sobrancelhas escuras curvaram-se indagadoramente, ela corrigiu:  Eu me sentia bem antes de voc chegar.
	Ento, o que houve?
A zombaria havia desaparecido, e agora o tom de voz era suave e caloroso. Vitria estremeceu diante de seu poder sobre ela. No entanto, sua voz estava firme ao dizer:
	Tambm no  da sua.conta. V embora!
	Mas eu mal cheguei...
	Por favor, estou pedindo.
Zac a fitou friamente.
	Goste ou no, Vitria, precisamos conversar. Temos assuntos a discutir.
	Nada tenho a lhe dizer, exceto adeus.
Zac soltou um suspiro, a pacincia prestes a esgotar-se.
	Mas que diabos est havendo com voc? Oua o que tenho a dizer, droga!
	Por favor, poupe-me  disse ela secamente, forando a voz para no revelar seu tumulto interior.  V amolar aquela tal...  De repente, descobriu que no podia dizer o nome de Gina e substituiu:  Sua outra mulher.
Achava quase inacreditvel dirigir-se a ele daquele modo. Duvidava que algum tivesse se atrevido a fazer isso antes. Zac Hardin agia de acordo com a prpria lei, poderosa e implacvel, impiedosa para aqueles que cruzassem seu caminho.
	No vim aqui para falar sobre isso. Temos assuntos mais importantes a tratar, e voc me ouvir.  Zac havia notado sua palidez, e o tremor nas mos que ela tanto tentava esconder.  Mas, primeiro, precisa se alimentar.
	No estou com fome.
Ele cruzou os braos diante do peito e se ps a observ-la, os olhos estreitados, as pernas separadas e o corpo relaxado.
	Viajo h no sei quantas horas, estou cansado, faminto e com a pacincia esgotada. Alm disso, s de olhar para voc percebo que uma boa refeio ir lhe fazer muito bem. Prometo que irei embora logo aps comer e conversar.
	Quero que voc v embora agora  repetiu ela, teimosa.
	De jeito nenhum.
Era sua palavra final, e Vitria o conhecia o suficiente para saber que poderia insistir at se cansar, ele no a ouviria. No entanto, continuou insistindo:
	Voc no tem o direito de vir aqui me aborrecer.
	Tenho todos os direitos do mundo. Sou seu marido. Ou ser que esse fato escapou-lhe da memria?
	Somente at o divrcio ser assinado  retrucou ela.  No estou mais usando o nome de casada.
	E da? Legalmente, voc ainda  minha esposa.
	Mal fomos casados. S ficamos juntos um dia.
	E uma noite.  Os olhos de Zac estreitaram-se. Sorriu ao acrescentar:  No se esquea da noite de npcias. Anulao, definitivamente no seria uma opo.
Como se ela pudesse esquecer... Doa muito falar sobre o assunto e Vitria baixou a cabea, tentando conter as lgrimas. Era inocente aos vinte anos, mas, nas mos daquele homem experiente de trinta e cinco, conhecera as alturas. A cerimnia acontecera como num conto de fadas; laos de fita, rendas e flores de laranjeira em profuso, apesar de ter sido organizado em apenas quatro meses, meses de encantamento. A noite de npcias foi de inesquecvel paixo.
Vitria conheceu Zac um dia aps ter regressado  Inglaterra, vinda da Romnia, onde passara doze meses aps ter se formado na universidade. Tinha ento dezenove anos eera virgem.
Fora sua me quem os apresentara, na festa que comemorava seu retorno  Inglaterra.
	Onde fica a cozinha?  A voz de Zac a trouxe ao presente.
	J que voc insiste, providenciarei algo para comer.
	Eu farei isso. Fique onde est. Voc precisa descansar.
	Desde quando voc sabe cozinhar?
	Desde sempre. H muito sobre mim que voc desconhece. Mas procure pensar somente em coisas boas. Quando estiver se sentindo melhor, conversaremos.
Ele no esperou pela resposta e saiu da sala  procura da cozinha. Pouco depois, Vitria o ouviu lidando com pratos e panelas.
De fato, ela estava sem nimo para levantar-se, concluiu, olhando para a porta pela qual Zac acabava de passar. No se sentia mal s porque dispensara o caf da manh antes de ir ao mdico, nem por causa do enjoo que sentia. O problema era Zac.
Ele no se enganara ao afirmar que havia coisas a seu respeito que Vitria desconhecia. Nos meses que precederam o casamento, raramente ficaram sozinhos. Por que no suspeitara desse fato? Era normal que duas pessoas que se amavam desejassem ficar sozinhas. No entanto, Zac no parecia querer isso. Mas, com Gina na cidade, por que o faria?
O relacionamento deles no passou de uma mentira, e somente poucas horas aps o casamento o castelo de cartas que haviam montado desmoronou.
Vitria mal percebeu o telefone tocar no meio da noite de npcias, mal percebeu Zac estendendo a mo para atender, sussurrar algo e, em seguida, levantar-se, dirigindo-se  suntuosa sala de estar da suite presidencial do hotel, para falar na extenso.
Vitria estava zonza de sono quando ele retornou ao quarto e comeou a vestir-se.
	O que houve, Zac?  indagou, sonolenta.
	Somente um problema nas empresas, e preciso resolv-lo antes de viajar para a Jamaica. Torne a dormir, querida. No pretendo demorar.
Confiante, tola e cega, ela tornou a dormir, exausta pela excitao do dia anterior. Sua noite de iniciao sexual fora emocionante e passional.
Quando acordou, Zac a beijava suavemente. Es-tendeu-lhe os braos num convite mudo, mas ele balanou a cabea, suavizando a recusa com uma risadinha. Em seguida a lembrou de que haviam prometido partilhar o caf da manh com os convidados que permaneceram no hotel aps a recepo.
Vitria no pde evitar a decepo. Mas aquele era o primeiro dia de suas vidas como marido e mulher, e tinham todo o tempo do mundo para compartilhar o amor que sentiam um pelo outro.
Enquanto ela se vestia, Zac a observava com uma expresso estranha. Vitria no pode evitar a suspeita. Algo grave devia estar acontecendo. Zac parecia preocupado, j no era mais o amante ardente da noite anterior.
Foi ento que, no elegante saguo do hotel, descobriu porque ele se esquivara de seus braos naquela manh.
Zac avisou que precisava fazer alguns telefonemas antes de juntar-se aos demais, no caf da manh. Vitria sentou-se em uma das elegantes poltronas do hall para esper-lo. Pegou uma revista e comeou a folhe-la, julgando-se a mais feliz das mulheres. Pela primeira vez sentia-se amada e desejada. Sua infncia havia sido privilegiada materialmente, mas seus pais jamais fizeram segredo de que no queriam ter filhos. Vitria nascera por acidente e tor-nou-se um estorvo em suas vidas.
Aos sete anos, foi levada pela bab  escola. Mal conhecia os pais. Quando, trs anos mais tarde, o pai faleceu, foi como se ela tivesse comparecido ao funeral de um estranho.
J adolescente, tentou com todo o empenho aproximar-se da me, tornar-se sua amiga. Porm, aps incontveis tentativas sem sucesso, desistiu. Me e filha eram totalmente diferentes uma da outra.
Carol era uma vida socialite que aproveitava a vida em meio ao luxo e  sofisticao, usando a considervel fortuna que o marido lhe deixara. Via a natureza suave e gentil da filha como uma fraqueza e a desprezava por isso.
Enquanto aguardava por Zac, naquela primeira manh de sua vida de casada, Vitria sobressal-tou-se ao ouvir a voz da me soar sobre seu ombro.
	Vitria? Mas que diabos faz voc aqui escondida?
	No estou escondida. Estou  espera de Zac.
	E mesmo? Pois deveria ter se juntado aos demais  mesa e mostrado que no d importncia a nada.
	Como assim, no dar importncia?
	Quer dizer que voc no sabe o que houve esta madrugada?  O tom de voz de Carol demonstrava impacincia. Em seguida ela sentou-se na poltrona ao lado.  Julguei que Zac tivesse lhe contado.
	Contado o qu, mame?

	Sobre Gina Rossellini... a prima dele, de segunda ou terceira gerao, no estou bem certa. Ela tomou uma superdose de comprimidos durante a noite. Como tudo aconteceu no quarto ao lado do meu, no pude deixar de notar a confuso, s quatro horas da manh. Mulher estpida. No entanto, mereceu toda a ateno de Zac. Conheo o tipo.
	Mame, o que est insinuando? Que existe algo entre Zac e essa mulher?
	Ela foi amante dele durante anos, garota. Todos no planeta sabem disso, menos voc.
	E como eu poderia saber se ningum me contou?
	Bem, isso no importa agora, no ? A amante de seu pai o conheceu muito antes do que eu, e, se voc for inteligente, no arruina seu belo casamento por causa dessa infeliz. Alm disso, pode no parecer, mas uma amante  muito til.  ela que se encarrega de todas aquelas coisas que para os homens tm tanta importncia.
	Linda... Tia Linda! Voc est querendo dizer que ela era amante de papai? E voc no se importava?  Vitria sempre pensara em Linda Ward como amiga dos pais, embora sua me sempre a tratasse com uma condescendncia que ela jamais foi capaz de entender.
	Claro que no me importava. Todos eles tm amantes, ao menos aqueles que podem se dar ao luxo de sustent-las. Abra os olhos, garota. Claro que  prefervel que elas sejam mais discretas do que Gina, mas isso deve ter algo a ver com o sangue. A me de Zac  italiana e suponho que ter uma amante latina deve agrad-lo. Os homens procuram coisas diferentes nas amantes...  continuou naquele tom superior que adotava sempre que falava com a filha.  As amantes so para certas... necessidades bsicas, e as esposas so escolhidas de acordo com sua linhagem social.
	No  o caso de Zac  protestou Vitria, aumentando o tom de voz.  No sei o que houva com Gina a noite passada.  verdade que eles tiveram um caso, mas j acabou. Ele se casou comigo porque me ama, no por causa do meu nome, fortuna ou algo parecido.
	Controle-se, garota  avisou Carol, entre os dentes.  Detesto cenas. Claro que Zac a ama, mas uma aliana com nossa famlia sem dvida foi muito til para ele.
	No acredito em voc!
Carol suspirou, irritada.
	Espero que no faa disso um cavalo de batalha. Para uma mulher de vinte anos,  muito infantil. Zac passou parte da noite no quarto de Gina porque o chamaram para que ficasse ao lado dela. Agora, pelo bem de todos ns, encare isso como uma pessoa adulta.
	No acredito!  exclamou quase num grito, que fez Carol encolher-se na poltrona, os olhos azuis chocados ao fitar a filha.  Voc me desgosta, mame, sempre me desgostou. No passa de uma egosta, que no se importa com nada nem com ningum. Nunca me amou. E no acredito que algum dia tenha amado algum.  Vitria levantou-se, os olhos soltando fascas iradas.  Vou procurar Zac. Estou certa de que ele esclarecer essa histria. Queremos um casamento de verdade, mas isso voc jamais entender.
	Vitria! Sente-se e comporte-se. Voc me mata de vergonha.
	Sou uma mulher casada, mame, capaz de tomar minhas prprias decises. No esquea isso no futuro.
Ela tremia ao aproximar-se do local onde Zac se encontrava. Ele encerrou o telefonema bruscamente, acendendo um flash na memria de Vitria: por que simplesmente no usara o telefone da suite?
	Tory?  Aquele era seu modo carinhoso de cham-la.  Voc est bem?  Zac pegou-a pelo brao, conduziu-a a um canto e prendeu-a contra o peito. Algo a aborrece?
	Minha me... disse coisas terrveis sobre voc e Gina.
	O que foi que ela disse?  indagou ele, sem nada deixar transparecer. Vitria, no entanto, notou o impacto que as palavras causaram, e seu corao encheu-se de suspeitas.
 Que voc e Gina so amantes. Que voc tem interesse nos negcios que papai deixou. Disse que nosso casamento  um arranjo de anos atrs.
	E o que mais?  Zac continuou a fit-la com olhos irados.
	Acha pouco?
Ele olhou em torno e pegou-a pelo cotovelo. Vamos a algum lugar onde possamos conversar.
	Aonde voc foi quando me deixou sozinha no meio da noite?  ela quis saber, confusa e assustada.  Foi v-la?
Zac levou alguns segundos para responder.
	Oua, no estou preparado para discutir isso agora.  Ele no a chamou de Tory, e naquele momento Vitria teve certeza de que era com Gina Rossellini que o marido falara ao telefone.
	Por que ela tentou o suicdio? No suportou v-lo casado comigo? Julgava que seria ela a escolhida? Mas afinal, por que voc se casou comigo? Ser que minhas amizades so melhores do que as dela? Eu engrossaria mais seus cofres?
	Foi isso que Carol disse a voc?  perguntou ele, furioso. No entanto, no negou as acusaes.
Vitria no era capaz de acreditar que aquilo de fato estava acontecendo.
Diga a verdade. Voc est ou no fazendo acordos com as pessoas que administram os negcios de meu pai, no lugar de minha me?  Ela o fitava com desespero.  Sim ou no?
	Sim.Ele nem sequer pestanejou ao responder.
	 verdade que voc passou parte da nossa noite de npcias com Gina porque ela o chamou aps resolver tomar os comprimidos?  pressionou ela, o corao em disparada, enquanto o pesadelo confirmava-se na expresso fechada de Zac.
	Sim,  verdade.
	E ela  sua amante.
Era uma afirmao, no uma pergunta. O frio controle de Zac era absoluto ao responder:
	Eu e Gina tivemos um relacionamento, Vitria. Tivemos, no passado.
Ela desejou acreditar.
	Por que no me contou? Voc sabia que ela viria ao casamento.  Vitria sentia o corpo entorpecido. Pensar que chegara a gostar de Gina, ach-la charmosa...
	Porque no era relevante  disse ele suavemente. Fez meno de pegar-lhe o brao, porm Vitria o repeliu.
	Achou que no fosse relevante? Lembro-me de que voc almoou com ela recentemente... Disse que iria ajud-la a escolher um apartamento, coloc-la em contato com as pessoas certas.  Vitria recuou mais um passo, os olhos cor de violeta escurecidos.  Esse apartamento se tomou o ninho de amor de vocs, no ? E esta manh... esta manh... Oh, eu odeio voc!
Zac pegou-a pelo brao, forando-a a permanecer onde estava.
	Por favor, oua o que tenho a dizer... Posso explicar.
	Voc me deixou sozinha na nossa noite de npcias para v-la! Voc ainda a ama. Bastou que ela estalasse os dedos para que corresse a seu encontro.
	Foi com voc que me casei  disse ele com impacincia, os dedos machucando a pele suave.
	E voc que amo.
	Ento olhe nos meus olhos e diga que nada sente por ela. Que estou enganada, que no pagou por aquele apartamento.  Quando Zac apenas a fitou, Vitria soube que ele nada diria. Estava ciente de que, se falasse, ela notaria a mentira.
	Quero ficar sozinha. Vou para o quarto e deso em dez minutos  disse ela, trmula.
	Vou com voc. Isso j foi longe demais.
	Prefiro que fique aqui. Quero algum tempo sozinha antes do caf da manh. Ento conversaremos.
	Sua me merecia uma lio por encher sua cabea de tolices.
	Vejo voc em alguns minutos.
Afastou-se e entrou em um dos elevadores, sem olhar para trs, esperando que ele a seguisse. Ao notar que Zac no faria isso, algo se solidificou em seu corao.
A bagagem se encontrava em um canto do quarto, pronta para a viagem de lua-de-mel. Vitria pegou a bolsa e a maleta que preparara com tudo o que precisaria para passar a noite. Deixou o hotel pelos fundos, silenciosamente.
Parou do lado de fora, naquela manh fria de maro, olhando para os lados. No podia ir para a casa que Zac havia comprado em Wimbledon, ou para o apartamento da me em Kensigton, porque seriam os primeiros lugares onde ele a procuraria. Mordeu os lbio, nervosa, at que o nome de William lhe ocorreu.
William Howard era irmo de uma de suas melhores amigas, e ela o conhecia desde os oito anos de idade. Desde ento, passava a maioria dos feriados e das frias na casa dos Howard. Carol no poderia ficar mais aliviada por se livrar da inconvenincia de t-la por perto.
Quando a famlia mudou-se para o estrangeiro, William permaneceu na Inglaterra. Vitria tinha treze anos, mas eles continuaram a se ver.
William trabalhava para a rede BBC de rdio e televiso, e passava longas temporadas fora do pas, a trabalho. No entanto, chegara  Inglaterra justamente no dia do casamento de Vitria. Duas semanas antes ela recebera uma carta do amigo, dizendo que perderia a cerimnia por uma questo de horas. Sendo assim, devia estar em casa naquele momento.
O melhor de tudo era que Zac no conhecia William, nem sabia de sua existncia.
O amigo recebeu-a com um abrao afetuoso. Ouviu-a falar rapidamente sobre o que havia acontecido. Passaram horas conversando e ento ofereceu-lhe aquele santurio na Tunsia, uma casa que recebera como herana da av.
Desde ento, Vitria no tornara a ver Zac.
CAPITULO II

O delicioso aroma vindo da cozinha aguou o apetite de Vitria.
	Voc parece ter apenas doze anos esta manh.
A voz aveludada a fez virar a cabea. Zac a observava da porta, intensamente.
	As aparncias enganam.
No caso dela em particular, pensou Vitria. J era mulher-feita, com um filho, o filho dele, crescendo em seu ventre.
Uma sensao de terror assaltou-a e a fez voltar a cabea abruptamente, escondendo o rosto atrs dos cabelos sedosos. Ele no podia saber sobre o beb.
Durante aqueles dias sombrios aps o casamento, ela se dera conta de que sabia muito pouco a respeito do homem poderoso e enigmtico ao qual, de modo to confiante, unira seu destino.
No entanto, de uma coisa sabia. Zac defendia com unhas e dentes aquilo que lhe pertencia. E, certamente, encararia aquele pequeno ser em formao como parte do imprio Harding. Jamais consideraria os sentimentos dela.
Vitria havia sido criada por babs. No teve uma infncia feliz, e no permitiria que o mesmo acontecesse com seu filho. Ele era seu, s seu, disse a si mesma fervorosamente. Fora concebido por um erro dela. Decidira tomar plulas anticoncepcionais vrios meses antes do casamento. No entanto, por causa da correria, acabara se esquecendo de ingeri-la justamente naquela noite, nica e vital.
	Venha comer.
A voz dele soou fria e Vitria gostou disso. A formalidade no trato enfatizava o fato de serem apenas dois estranhos. O homem fascinante por quem ela se apaixonara, o amante fervoroso, o gentil companheiro, no passou de uma fantasia. O seu Zac, aquele que amou, nunca existiu, a no ser em sua imaginao.
Sentaram-se para comer nos banquinhos junto ao balco, que tinha espao apenas para acomodar dois pratos. Vitria teve de admitir que o peixe grelhado com molho de manteiga e ervas, acompanhado de pur de batatas, estava delicioso. Zac abriu uma garrafa de vinho branco que encontrou na geladeira. Ela, no entanto, preferiu suco de laranja.
Ao terminar a refeio, foram tomar o caf na sala de estar. Vitria sentou-se na cadeira de balano enquanto Zac permanecia em p, recostado  parede, com um ar pensativo.
	No acha que j fui suficientemente castigado? Ou ser que pretende continuar brincando de gato e rato comigo?  perguntou ele friamente.
	Acha que estou brincando? Se acha,  melhor pensar no que me fez.
Vitria pousou a xcara sobre a mesinha. A Zac no passou despercebido o tremor em suas mos.
	Se insiste em agir feito criana, como espera que eu a trate?  Ele suspirou.  Nunca testemunhei maior infantilidade. Onde j se viu, desaparecer sem dizer uma palavra? Que loucura.
	De fato, sou louca por ter acreditado em tudo o que me disse. Pode haver loucura maior do que esta?
	Eu no menti  protestou ele.  Amo-a de verdade, Vitria. Foi voc quem me abandonou, lembra-se? No fui a lugar algum.
	E o que esperava que eu fizesse aps ter sido trocada por outra mulher em plena noite de npcias?  perguntou ela, incrdula.
	No tive escolha. Recebi um telefonema angustiado, de um ser humano que precisava de ajuda. No pude recusar.
"Claro que no", pensou Vitria. Afinal, fora ele que causara o estrago.
	Voc escondeu seu caso com Gina de mim, apesar de ter tido diversas oportunidades de me contar. Se minha me no me tivesse aberto os olhos, eu jamais saberia. Voc nunca me contaria.
	No vi necessidade de aborrec-la com bobagens  disse Zac friamente.  Era meu problema, e tentei resolv-lo da melhor forma possvel.
Oh, de fato. O problema era dele!
	Voc se casou comigo s para ampliar seu imprio financeiro  acusou Vitria.  E no tente negar isso porque sei que  verdade. Provavelmente, fui apenas um capricho, ingnua o
suficiente para servir aos seus propsitos. E planejava continuar vivendo como sempre viveu, livre para desfrutar do carinho de sua amante.
	Ora, no diga tolices  retrucou Zac furiosamente.  Nunca menti para voc. Se tivesse me perguntado sobre Gina, ou sobre a fuso que eu pretendia fazer com as empresas de sua famlia, eu teria esclarecido suas dvidas.
	Agora  fcil falar  retrucou ela, irritada.  Como eu poderia perguntar algo que desconhecia?
Vitria sempre se considerou uma pessoa calma e gentil. Jamais lhe ocorreu agredir uma pessoa. No entanto, naquele momento, se tivesse algo ao alcance das mos, teria jogado em Zac, para acabar com aquela arrogncia.
	Diga a verdade, pelo menos uma vez. Voc comprou aquele apartamento para dar de presente a Gina?  pressionou ela.
	No vou responder antes de explicar as circunstncias, seno voc no entender  disse ele, aps olhar por um longo tempo para o rosto plido de Vitria.
	Nem precisa responder. Eu sei que comprou  sussurrou ela atordoada, o olhar desolado.
	Eu tinha responsabilidades das quais no podia fugir  respondeu ele com firmeza.
	Ah, sei.
	No para com Gina, mas para com uma pessoa da minha famlia. A me dela, prima de meu pai, me telefonou da Itlia, dizendo que Gina estava com problemas e que precisava de ajuda. No tive como recusar.
	Ela sabia que vocs dormiam juntos?
Ele deu de ombros.
 Isso no interessa. O que importa  que o nosso caso terminou antes de eu conhecer voc  disse Zac, com rgido autocontrole.  E verdade, eu juro.
 No acredito.
As palavras pairaram no ar por uma eternidade. Quando Vitria virou o rosto para o jardim, evitando ver-lhe a expresso sombria, seus olhos se fixaram num pequeno lagarto, que mudou de cor, confundindo-se com a pedra onde estava.
Como a vida podia prosseguir, o sol brilhar to forte, as flores e rvores parecerem to belas, quando seu mundo havia se despedaado?
Imaginava que Zac fosse diferente, que a amasse tanto quanto ela o amara, perdidamente. Mas ele tambm fazia parte do mundo frvolo de sua me.
No conseguiria passar o resto da vida ao lado de um homem cujos valores eram semelhantes aos de seu pai. Sua me conseguira se adaptar, e na verdade apreciava aquela vida. Ela, porm, estava ciente de que acabaria sendo destruda se tentasse fazer o mesmo. Os dois ltimos meses eram uma prova disso. Mas havia mais, muito mais, que s agora conseguia entender.
E no era apenas Gina, ou mesmo o interesse de Zac na fuso de suas empresas. Durante todos os meses em que estiveram juntos, partilhando alegrias, risos e magia, Zac jamais lhe falara seriamente. Tratara-a como se fosse uma boneca, um brinquedo divertido. E ela estivera encantada demais com seu charme, sua beleza e sua experincia para notar o que acontecia. Mas os sinais haviam estado l. Agora conseguia v-los.
Queria que seu filho crescesse no mundo real, com pessoas de verdade. No seria fcil cri-lo sozinha, mas no pediria um centavo a Zac, nem  sua me. No queria ter ligaes com nenhum dos dois, ou com o mundo que frequentavam.
	Voc est deixando algo precioso. No faa isso, Vitria. D-me uma chance de explicar, contar o que houve. Confie em mim.
	Lamento, mas agora  tarde.  Vitria o fitou, com os olhos azuis e brilhantes espelhando uma imensa dor.  No devamos ter nos casado. Somos dois opostos.
	No posso concordar com isso  negou ele, enfurecido.  Voc  minha esposa, e no costumo abrir mo do que  meu.
Alcanou-a com trs passadas, erguendo-a da cadeira. Tomou-a nos braos com uma fria intensa, unindo os lbios aos dela.
Pega de surpresa, Vitria no conseguiu evitar. O cheiro, o gosto e o toque de Zac faziam sua cabea rodar. Estava faminta por ele, fisicamente faminta, havia muito tempo. E, enquanto era beijada, o desejo cresceu, imperioso, ameaando derrot-la. Seria loucura fraquejar.
Os lbios de Zac eram vorazes, provocando uma resposta que ela no estava pronta para dar. Ou melhor, que no se atrevia a dar.
Continuou a lutar, percebendo, humilhada, o quanto era fraca em relao quele homem.
	No faa isso  implorou.
	Por que no? Sou seu marido.  Zac levantou a cabea levemente, os olhos escuros faiscando, enquanto a prensava contra a parede da sala de estar.  H semanas no penso em outra coisa.
	Eu no quero  protestou ela, balanando a cabea, enquanto Zac mais uma vez tentava aprisionar-lhe os lbios.
	Quer sim. Negue, se puder  discordou ele. Tinha a respirao ofegante, o corpo tenso e as coxas firmes contra as dela.  A nossa noite de npcias foi s uma amostra. Quero mais, muito mais. Voc  minha, Tory. Sempre ser.
Vitria congelou. O grande amor que partilharam teria se reduzido a isso? Satisfao do desejo fsico, o dono tomando posse do que era seu? Zac no a amava. Nem sequer sabia o que era o amor.
A mente de Vitria rodava enquanto ele tornava a beij-la. Zac havia comprado aquele apartamento para Gina, poucas semanas antes do casamento, e sara correndo atrs dela a um simples chamado, justamente na noite de npcias.
Era bvio que escolhera Vitria como esposa porque ela se ajustava com perfeio ao papel da sra. Harding. E tambm porque decidira que estava na hora de se casar, tornar-se um homem de famlia. Alm disso, havia um outro incentivo, bem maior: o acordo lucrativo que faria com a sogra. S que ele no estava preparado para cortar o lao que o unia a Gina. E, por isso, Vitria o odiava.
	Quero o divrcio. O quanto antes  informou, determinada.
	Divrcio? Nem pensar!
	No estou brincando  insistiu ela.
	Nem eu estou.  O desejo tomava conta de Zac, transtornava-o.  Nunca desisto do que  meu, a menos que queira isso. E, nesse caso, eu no quero.
Naquele momento, Vitria tomou uma deciso: teria de retornar  Inglaterra logo para providenciar o divrcio, e em seguida tornar a desaparecer at que os papis da separao fossem assinados ou at que o beb tivesse nascido... o que acontecesse primeiro. E, quanto menos pessoas soubessem da gravidez, melhor.
	Voc no me impedir de entrar com a ao de divrcio  desafiou ela, surpreendendo a si mesma pela coragem.  Vamos nos separar, quer voc queira ou no. Hoje em dia, mulher alguma  obrigada a manter um casamento indesejado.
	Voc me ama, Tory. Fui o primeiro homem da sua vida e pretendo ser o ltimo.
As palavras dele eram extremamente arrogantes e devastadoramente verdadeiras. Vitria conseguiu manter o rosto impassvel graas ao duro treinamento na infncia, quando, com frequncia, precisava esconder os prprios sentimentos. Naquela poca, como agora, estava ciente de que qualquer sinal de fraqueza seria usado impiedosamente contra ela.
	Voc na certa deve julgar que a mulher, a sua mulher,  como uma flor, com mel apenas para uma abelha  disse amargamente.  No entanto, acha que tem direito a usar todas.
Zac estreitou os olhos ao fit-la.
	Eu jamais disse isso.
	Nem precisava. Essa viso particularmente masculina da vida no  novidade. Vem sendo expressa desde o incio dos tempos. Os homens podem se entregar a todos os prazeres, enquanto a mulher deve manter-se entre quatro paredes, intocada, pura como a neve.
	Eu jamais afirmei que era inexperiente  Zac exaltou-se.  Voc se casou comigo sabendo das mulheres que tive o passado. Nunca escondi isso.
	Daquelas que existiram antes de mim eu sabia e aceito, mas no conhecia as atuais.  Vitria respirou fundo, a familiar sensao de tontura e enjoo retornando. Tornou a sentar-se, abaixando a cabea e se curvando enquanto tentava controlar a nusea  Oua, esta guerra de palavras no nos levar a lugar algum.  melhor voc ir. No estou me sentindo bem. No sei se foi a comida ou o calor, mas no estou bem do estmago. Quero me deitar.
A extrema palidez falou por ela.
	Muito bem, eu vou. Mas... Vitria?  Ela levantou a cabea e o fitou enquanto Zac a analisava com olhos atentos.  Nem pense em tornar a desaparecer. Uma vez eu posso aceitar, mas, se tentar outra vez, ter de prestar contas. Eu a encontrarei at no meio do inferno.
Com quem ele julgava estar falando? Com uma de suas amantes? Ela o encarou com desafio no olhar.
Zac parecia prestes a ir embora. Mas de repente tomou-a nos braos e beijou-a ardorosamente. Em seguida, ergueu a cabea e sorriu, malicioso.
	Desculpe, mas no pude evitar  disse, junto a seus lbios.  H algo em seu rosto plido que me excita, especialmente quando h essa sua nova faceta ardente como contraste.
	No interessa se o excito ou no.
	Voc no sabe mentir. Eu apostaria minha vida como me deseja tanto quanto a desejo. Pena que no confia em mim.
	Tem razo, Zac. No confio.
Ele deu de ombros, desdenhosamente, mas a Vitria no escapou seu olhos estreitados e a tenso nos maxilares. Jamais ousara dirigir-se a Zac naquele tom, e ele no gostou. Otimo. No suportava mais sua arrogncia.
	No confia em mim, mas confia naquela megera, pois acreditou em tudo o que ela disse...
O modo como ele se referia  sua me costumava fazer Vitria rir, mas incomodou-a ouvi-lo. Naquele momento, apesar do calor mido e sufocante que deixava as ruas desertas e vazias, a temperatura caiu a zero quando ele acrescentou:
	E correu para William Howard pedindo ajuda. Confia nele tanto assim? Por que isso?
	William? Por acaso ele disse onde eu me encontrava? Voc... no o machucou, no ?
	No, no o machuquei. No sabia que havia motivos para isso, mas estou comeando a suspeitar que sim. E, quanto  sua pergunta, descobri seu paradeiro por outras fontes. Tenho... contatos.
Ah, claro, pensou ela amargamente. Zac contava com um pequeno exrcito de profissionais prontos para obedec-lo a um simples estalar de dedos. Alm disso, com tanto dinheiro, podia se dar ao luxo de comprar tudo e todos. Certa vez, o ouvira mencionar uma pesquisa. Encontravam-se em uma festa. Um de seus colegas de negcios se aproximou e conversaram a respeito de um possvel acordo. Mais tarde, quando Vitria perguntou o que significava aquilo, ele sorriu:
	Mantenho uma equipe s para "pesquisar", descobrir coisas que certas pessoas preferem manter em segredo.
	Detetives particulares, voc quer dizer?  perguntou ela, com ingenuidade.
	Mais ou menos isso...  ele confirmara, e em seguida mudara de assunto.
Vitria retornou ao presente quando o som da voz masculina ecoou pela sala.
	Por que Carol no conhece William?
	Porque nunca se interessou em conhecer meus amigos. Perguntou a ela sobre William?
	Perguntei... E ela respondeu que se tratava do irmo de uma amiga sua dos tempos de estudante. Meu contato informou que ele se encontrava fora do pas, cobrindo um incidente na Arbia Saudita.
	Mas como? Essa informao  ultra-secreta!  exclamou Vitria, chocada.
	Mas a voc ele contou...  disse Zac calmamente.
	Claro. Ele sabe que sou confivel.  Diante do olhar ameaador do marido, Vitria suspeitou que fora mal interpretada.
Zac a fitou com ar de poucos amigos.
	Afinal, qual  o seu relacionamento com esse homem?  perguntou com extremo controle.  Quero que seja franca, por favor.
	O qu?
Ele estava com cime! Mas quem se julgava ser para questionar sua conduta moral?
	Voc veio para a Tunsia em meados de abril  constatou ele, os olhos escuros faiscando.  Por onde andou nas duas semanas anteriores, quando pareceu ter desaparecido da face da Terra?
Vitria sentiu raiva.
	William me hospedou no apartamento dele. Satisfeito?
	J entendi  disse Zac num tom mais ameaador do que nunca.
	No, voc no entendeu! William tem sido maravilhoso comigo, mas somos apenas bons amigos.
	No existe amizade entre homem e mulher declarou Zac, o rosto tenso.  Ainda mais tratando-se de uma mulher bonita como voc. Ele precisaria ser de ferro. Tem certeza de que esse rapaz gosta de mulheres?
	Como ousa? Ele  muito...  Ela parou de falar abruptamente, percebendo que, naquele momento, no seria prudente realar a masculinidade de William. Fitou Zac, sentindo a mente esvaziar.
	Muito...
	Homem.
	 verdade? E como esse macho a trata? Como se fosse seu velho tio? Quantos anos ele tem?
	Vinte e sete.  s o que queria saber? No estou com a menor vontade de falar a respeito dele.
	Aposto que no  zombou Zac.  Oua, quero dar um aviso: se eu souber que voc esteve com ele, pode se preparar para ir visit-lo no hospital.
	Como ousa amea-lo? William nunca lhe fez nada!
 No  o que ele me fez que me preocupa  informou Zac.  E tampouco  uma ameaa. E uma promessa.
	No posso acreditar! Aps tudo o que fez, ainda tem a desfaatez de se opor a que eu e William...
	Uma forte tontura a interrompeu. A cor ia e vinha em seu rosto enquanto olhava para Zac.
	Voc e William...  ele pressionou, a expresso deixando claro que pensava o pior do seu sbito silncio.
	Sejamos amigos.  At mesmo para os seus ouvidos aquilo soou como um segundo pensamento.  Uma mente suja como a sua s poderia mesmo pensar que somos mais do que isso. William  a pessoa mais gentil, honrada e generosa que conheo e...
	Por favor, me poupe. No estou interessado na lista de virtudes de seu amigo  disse Zac com sarcasmo.  Admira-me que ainda no tenha criado asas.
Vitria mal continha a fria. Somente aps tomar flego foi capaz de falar.
	No quero mais tocar nesse assunto.  completamente intil. No admito que suspeite da minha integridade.
	Uma regra para mim e outra para voc?  sugeriu ele friamente.
Vitria levantou-se.
	Vou me deitar  disse, num tom controlado. 	No estou bem.
	Como se eu estivesse timo...  ironizou Zac.
	Quando Vitria o ignorou, tratou de perguntar:
	No quer ficar com o nmero do telefone do meu hotel?
	Para qu?
Vitria afastou-se apressada, pensando apenas em alcanar o banheiro. Bateu a porta no rosto ultrajado de Zac.

CAPTULO III

Uma semana depois, Vitria estava de volta  Inglaterra. Almoava com William em um dos restaurantes preferidos pela elite de Londres.
	Ento no contou a ele que est grvida?
	No. Zac passou apenas uma noite na Tunsia, e quando voltou para conversar comigo, tornamos a brigar. Foi horrvel.  Vitria queria chorar, mas no podia.  Eu lhe disse apenas que voltaria  Inglaterra e que pretendia alugar um apartamento.
	Pelo que entendi, Zac no gostou de v-la em Mimosa  comentou William, levantando as sobrancelhas escuras.  Muito menos de saber que esteve hospedada em meu apartamento. Mas posso entender.
	Contei-lhe que ramos amigos, mas ele no acreditou. Alega que  impossvel haver amizade entre um homem e uma mulher.
	Seu marido est certo  concordou William calmamente. No era o que Vitria esperava ouvir, e sua expresso revelou isso.  Oua, Olhos-Azuis...  aquele era o apelido que William lhe dera quando tinha oito anos de idade, e pelo qual passara a cham-la desde ento  ...adoro voc com loucura, mas sempre soube que me via como um irmo mais velho, nada alm disso.  Deu de ombros indiferente, tentando esconder a dor que o maltratava havia anos.  Mas no importa. Prefiro estar em sua vida como amigo a ficar fora dela completamente.
	Oh, William!  Vitria o fitou, cheia de culpa.  Voc nunca disse... eu no sabia!
	No  nenhuma tragdia  disfarou ele. Nenhuma tragdia? Vitria conseguia acabar com sua paz de esprito com um simples olhar.  Quero ajud-la, e nem todos os maridos malucos e raivosos do mundo me faro desistir disso. Sabe que minha casa  sua casa, sempre que precisar. Sem compromissos. Agora...  William sorriu, notando que comeava a se emocionar  ...termine seu almoo. No se esquea que precisa comer por dois. Acho melhor pedir uma sobremesa dupla.
	William...  ela se mexeu desconfortavel-mente na cadeira.
	Coma.  Dessa vez, o sorriso dele foi verdadeiro.  No  o fim do mundo. No morrerei por um amor no correspondido. Voc me conhece. Sou forte como botas velhas.
	Sinto-me horrvel.
	Bem, no se sinta.  E, de repente, ele voltou a ser o velho William, o mesmo que Vitria conhecia, ou julgava conhecer.  Sabe muito bem que companhia feminina  o que no me falta.  Piscou, para faz-la rir.
E Vitria riu, embora sem vontade. Pobre William. Estava atordoada. Jamais sonhara que o amigo sentisse algo por ela. Por que no lhe dis-gera antes? Observou-o comer o fil, parecendo relaxado e satisfeito.
poderia, algum dia, corresponder quele sentimento? William era um homem atraente, com cabelos negros e olhos castanho-esverdeados, nariz reto e lbios cheios. Tambm era alto, mas no tanto quanto Zac.
Vitria olhou para o prato com a salada. Ele tinha razo. Realmente, via-o como a um irmo. E o amava da mesma forma.
	Quanto tempo dura esse enjoo matinal nas grvidas?  William quis saber.  Voc est bastante abatida.
	Acho que mais algumas semanas  disse ela, suspirando e sentindo-se cansada.  Eu gostaria que eles fossem apenas matinais. Esto acontecendo a qualquer hora do dia, inclusive  noite.
	Minha pobre querida...  William estava rindo, e Vitria acabou fazendo o mesmo. Mas no por muito tempo, principalmente quando ele disse:  Sabe que mais cedo ou mais tarde vai ter que contar a Zac, no sabe? O filho tambm  dele. Ningum pode esconder tal coisa de um pai. Essa ideia de desaparecer no me parece muito sensata.
	O que  isso, a eterna irmandade?  indagou Vitria, fingindo-se zangada.
William estava certo. Ela teria que enfrentar um briga e tanto quando Zac descobrisse sobre a criana. Mas no fraquejaria.
Saram do restaurante de braos dados e, como sempre, Vitria sentiu-se melhor aps ter conversado com o amigo. J se instalara no pequeno apartamento que alugara dois dias atrs. Surpreendentemente, quem a ajudara a encontrar aquele pequeno tesouro escondido em Richmond fora sua me. A proprietria era a filha de uma de suas parceiras de bridge.
Ficou grata por t-lo encontrado to rpido. Os trs dias que passou na casa da me, aps voltar  Inglaterra, foram mais que suficientes para ambas. Vitria evitava pensar em como Carol reagiria ao saber que, em pouco tempo, seria av. As duas mal conversavam e, no primeiro encontro que tiveram aps sua volta, Carol lhe disse sem rodeios que a considerava totalmente responsvel pelo fim do casamento.
Como se pudesse ler seus pensamentos, William a parou na calada, em frente ao restaurante, e lhe deu um forte abrao, olhando-a enquanto perguntava:
	Como sua me est se comportando?
	Como era de esperar  disse Vitria, com justificvel amargura.  Acusa-me de ser a nica culpada pela separao, diz que Zac nada fez de errado.
	Carol no tem jeito. E difcil acreditar...
Vitria no descobriu o que William achava difcil acreditar porque, no momento seguinte, en-quanto permanecia em seus braos, olhando para o rosto daquele amigo to sincero e gentil, uma voz fria e sinistra soou ao lado dela a fez afastar-se bruscamente.
	Detesto interromper esse comovente momento de ternura, mas preciso falar com minha esposa.  O gelo tilintava em cada palavra de Zac.
	O qu?
Vitria tropeou ao dar um passo para trs, e s no caiu porque ele rapidamente a segurou. Soltou-a mais depressa ainda, como se mal conseguisse toc-la.
	Vamos pular essa parte, por favor, e ir direto ao assunto  declarou Zac com frieza.
Sua aparncia era magnfica, notou Vitria. Usava terno, deixando claro ter vindo do escritrio. E, apesar do dio que transformava seus olhos negros em projteis brilhantes e quase letais, parecia totalmente controlado.
	No  a hora, nem o lugar...  comeou ela a dizer, hesitante.
	Ao contrrio, a hora  excelente  disse ele duramente, os olhos varrendo-lhe o rosto corado.
	Eu acabei de almoar. Este ...
	William Howard  Zac concluiu por ela, lanando um olhar mordaz ao outro homem antes de tornar a fit-la.  Despea-se de seu amiguinho. Precisamos conversar.
	Espere um minuto  interveio William, farto de ser ignorado.  Talvez Vitria no queira ir com voc.
	O que ela quer, ou deixa de querer, no  da sua conta  disse Zac. Quando William ia protestar, ele ergueu a mo.  Fique fora disso, Howard.
	Pare! Voc enlouqueceu?  interveio Vitria.
	Um de ns certamente enlouqueceu. E no tente me dizer o que devo fazer. 
	Ela no ir a lugar algum enquanto voc no se acalmar  disse William corajosamente.
	S se eu for junto.
	Negativo  retrucou Zac.  Voc fica.
	Se encostar um dedo nela, eu...
	Jamais encostaria num fio de cabelo de minha mulher, e ela sabe disso. Em voc, entretanto, no posso garantir.
	Muito bem, vamos.  Naquele momento, Vitria teria dito qualquer coisa para afastar Zac dali.  Onde estacionou o carro?
	Perto daqui.  Ele apontou para o outro lado da rua, sem tirar os olhos de William.
	Voc no precisa ir com ele, Vitria  disse William.  Sabe que no tenho medo de ameaas, Olhos-Azuis.
O apelido saiu naturalmente. Vitria ouviu Zac grunhir "Pois devia ter, Howard" e percebeu que aquilo s servira para deixar seu marido ainda mais enfurecido.
	Preciso ir, meu amigo. Ns... temos assuntos srios a tratar, e prefiro fazer isso quanto antes.
William assentiu.
	Se voc tem certeza...  Em seguida, encarou Zac e disse:  Sua demonstrao de fora no me assusta. Se ela no quisesse ir, eu no permitiria que fosse. Quero que isso fique bem claro.
	Seu...  Zac segurou Vitria pelo brao e impeliu-a at o carro.  Vocs dois esto me escondendo alguma coisa?  perguntou, ameaador.
	Acho que tenho o direito de saber.
	No sei do que est falando.  Vitria ouviu com tristeza as prprias palavras.
Zac precisava saber que em breve seria pai. No poderia manter segredo por muito tempo. J estava entrando no quarto ms de gravidez, e o fato de um pequeno ser estar vivo dentro dela, crescendo, se desenvolvendo, a deixava mais assustada a cada dia. Nem mesmo sabia se era menino ou menina, mas amava aquele beb com todo o corao, e nada a faria afastar-se dele. Nada... nem ningum.
Zac abriu a porta do veculo para que Vitria entrasse. Deu a volta, sentou-se atrs do volante.
	Apesar de ter adotado de modo to entusistico um estilo de vida inferior quele a que estava acostumada, voc no me parece feliz. Qual  o problema? A grama no  to verde quanto esperava? J est arrependida do deslize?
	O qu?  perguntou ela, endireitando o corpo.
	Como prefere chamar?  perguntou ele seriamente, entrando no trnsito enlouquecido aps olhar o espelho retrovisor.  Uma vingana? Um romance ilcito, em que voc se envolveu apenas para retribuir minha atitude pecaminosa? At onde vocs foram, Vitria? Chegou a dormir com ele? E no venha me dizer que esse moo no  louco por voc, porque qualquer cego pode ver isso  concluiu causticamente.
Vitria se sentia mal em relao a William, dolorosamente culpada por no ter notado seus verdadeiros sentimentos. Jamais o teria procurado, ou aceitado seu convite para hospedar-se em sua casa. Na certa fora-lhe difcil manter a atitude gentil e fraternal de sempre.
	Ento, Vitria, o que pretende fazer?
	Preciso conversar com voc antes de resolver.  No podia dizer que ele seria pai, nem que no pretendia retomar o casamento, no meio daquele trnsito catico.  Podemos parar em algum lugar tranquilo por um ou dois minutos, por favor?
	Por que ser que tenho a impresso de que me dir exatamente aquilo que conversava com o velho William?  perguntou Zac com frieza.
Vitria respirou fundo, para manter a calma. Zac estava to zangado, to amargo, to furioso... quando deveria ser ela a sentir-se assim. Fora a trada, no ele. Mas no pretendia ficar batendo na mesma tecla, explicando seu relacionamento com William. Tentou fazer isso duas vezes, quando o marido foi v-la na Tunsia, mas ele conseguira torcer suas palavras.
Zac tinha uma amante, alm de um excelente acordo financeiro. Otimo. Mas ela se recusava a fazer parte do pacote, e menos ainda permitir que o filho deles fizesse.
O sol de vero era quente, mas o calor no os atingia dentro do interior refrigerado do carro. Permaneceram em silncio enquanto percorriam as ruas de Londres. Vitria mal conseguia respirar, cnscia da presena devastadora a seu lado, sentindo o perfume suave e familiar. Como conseguiria passar a vida sem ele? Seu caso com Gina seria duradouro? Zac ficaria com a amante? Ou surgiriam outras mulheres?
Mas Vitria lhe daria um filho, e isso a tornaria especial. Alm disso, Zac havia se casado com ela. Fora sua esposa, mesmo que por uma noite... uma noite para durar a vida inteira.
Mas Gina o teria por muito mais tempo. O pensamento causou-lhe uma dor lancinante. Teve vontade de gritar. No queria am-lo. Nos primeiros dias aps o casamento, jurara a si mesma que o odiava, mas no adiantou. Zac fazia parte de sua vida como nenhum outro jamais faria. Mas lhe fora infiel. Jamais permitiria que ele soubesse quanto o amava.
Permaneceu em silncio, olhando cegamente atravs da janela enquanto ondas de angstia e amargura a varriam. Quando Zac saiu da estrada e atravessou um imenso porto de ferro, Vitria no percebeu onde estavam. S pouco depois, ao sair do devaneio, olhou em torno.
	Eu no queria voltar aqui.
	Voc disse que queria conversar num lugar tranquilo  disse ele.  Onde poderia ser mais sossegado do que nossa casa, a que escolhemos juntos, e na qual vivo sozinho?
	No  nossa casa.  A tristeza de rever a moradia onde julgava que seria to feliz ao lado dele a deixou com a voz embargada.
	E sim, goste ou no.  Ao contrrio do fervoroso protesto de Vitria, havia doura na voz de Zac.
	Tanto no gosto que renunciarei  minha parte nela.
Algumas semanas atrs Vitria encarara o fato de que jamais viveria naquela casa. E pensar que eles haviam se divertido tanto escolhendo os carpetes e as cortinas, os maravilhosos mveis antigos, a cozinha... Fora um sonho to lindo...
A casa pintada de branco, em estilo vitoriano, tinha as paredes cobertas por trepadeiras que comeavam a florescer em maio. Naquela poca, no incio de julho, uma cascata de ptalas exalava um delicioso perfume que impregnou-lhe as narinas assim que Zac abriu a porta do carro. A tranquilidade do lugar contrastava com o turbilho que lhe ia na alma.
Quando ela e Zac procuravam um lugar para comprar, Vitria se apaixonara pelo jardim antes mesmo de colocar os ps dentro da residncia. Estava todo florido, uma exuberncia de petnias, papoulas vermelhas e rosas perfumadas de todas as cores.
Ao entrar na casa, ela encontrou uma sala imensa, com piso de carvalho, e escada em caracol, reminiscncias de uma poca mais tranquila. Era o lugar perfeito para uma famlia. A claridade entrava pelas janelas dos quartos de teto alto.
Zac sorrira diante do entusiasmo dela, embora lembrando-a dos inconvenientes de adquirir um imvel to antigo. No entanto, comprara-o no dia seguinte, apesar de todos os defeitos. Mal sabia Vitria que jamais moraria ali.
	No quero entrar  insistiu ela, retornando ao presente, enquanto Zac abria a porta de passageiros e estendia a mo para ajud-la a sair.  Prefiro conversar aqui no carro.
	No seja tola.  Zac nunca lhe falara com tanto desdm. Mas Vitria preferia mil vezes passar por tola a entrar na casa com a qual sonhara mais vezes do que gostaria nas ltimas semanas. Os sonhos sempre terminavam da mesma forma... ela e Zac abraados sobre a imensa cama, os lenis de cetim absurdamente caros que ele insistira em comprar, macios e sensuais sob seus corpos nus.  O que acha que vou .fazer... agarr-la  fora, assim que fechar a porta?  perguntou ele zombeteiramente.  Entre e tome um caf comigo. Afinal, somos pessoas civilizadas.
Vitria saiu do carro com relutncia, ignorando a mo que o marido estendera. O vestbulo continuava to bonito quanto ela se lembrava. Duas cadeiras de madeira em estilo antigo, os assentos forrados com motivos florais, ladeavam o aparador. Um vaso com rosas completava o quadro. Foram entregues na primeira semana aps o casamento. Portanto, Vitria ainda no os tinha visto. Sentiu as lgrimas a ameaarem e disse, com voz estrangulada, tentando no chorar:
	As cadeiras ficaram tmas.
	Danem-se as cadeiras.  Aquele era o verdadeiro Zac, e em outras circunstncias a teria feito rir. Mas essa era a ltima coisa que ela sentia vontade de fazer ao segui-lo  imensa cozinha decorada em estilo country que se abria para uma deliciosa saleta, que por sua vez dava para o jardim dos fundos.  Sente-se.  Zac indicou um dos sofs de vime, forrados com estofados macios.  Trarei o caf num minuto.
O jardim dos fundos era bem maior que o da frente, coberto por um gramado impecvel e cercado de rvores e arbustos, que impediam a viso da casa pela vizinhana. Algumas das rvores eram frutferas. Bancos de madeira estrategicamente colocados completavam o cenrio. E foi num deles que Vitria sentou-se, passando pela saleta e dirigindo-se ao jardim.
O ar mido e parado cheirava a vero. Ao sen-tar-se na madeira quente pelo sol, ela sentiu as pernas trmulas. Precisava contar a Zac sobre o beb. Devia ter contado h uma semana, pensou atormentada, recostando a cabea e fechando os olhos. Essa era outra coisa que no conseguia entender: o cansao interminvel que sentia. Mesmo aps ter dormido a noite inteira, acordava exausta. Detestava ficar to sensvel, chorando por qualquer coisa, detestava o enjoo constante, detestava tudo. Seu nico consolo era saber que as outras grvidas sentiam o mesmo.
Tentou pensar em outra coisa, procurando uma posio mais confortvel. Ouviu um aeroplano solitrio passar zunindo montono no cu inteiramente azul, e as abelhas voando em busca do plen das flores, mas no teve coragem de abrir os olhos.
Quando Zac viesse a seu encontro contaria sobre o beb, mas seria firme ao dizer que queria o divrcio. Ento, a paz voltaria a reinar, pensou, intensamente cansada. Por enquanto, aproveitaria para descansar um minuto ou dois na calmaria, antes da tempestade.
Quando abriu os olhos, teve a sensao de estar deitada no banco, coberta por um cobertor. O cansao fez com que demorasse a perceber onde estava.
A primeira coisa que seu crebro registrou foi que a temperatura cara. A segunda, que a noite comeava a espalhar suas sombras por sobre a paisagem, e a terceira, o olhar penetrante de Zac, que a observava estendido sobre uma manta ao lado, com uma pasta aberta e vrios papis espalhados em redor, indicando que estivera trabalhando enquanto ela dormia. E, pelo jeito, h muito tempo.
	Sinto muito...  Vitria no podia acreditar que tinha cado no sono daquela maneira. Seu rosto horrorizado falava por si prprio, enquanto ela tentava sentar-se, as faces coradas pelo constrangimento.  Que horas so?  perguntou, confusa.
	Passa das cinco.
	Cinco?
Havia dormido por quase trs horas. O que ele estaria pensando? Descobriu isso quando Zac falou, num tom controlado:
	Vou lhe perguntar uma coisa e quero que diga a verdade. Voc est doente?
	No, no estou  negou ela, rapidamente. No queria dar a notcia de modo to brusco, mas no havia outra sada.  Estou grvida. Era sobre isso que eu queria conversar com voc  disse ela, hesitante, sentindo uma estranha timidez.  Zac no moveu um s msculo, nem mesmo piscou os olhos contornados por pestanas longas e espessas, e Vitria se viu balbuciando ao continuar:  E por isso que no ando me sentindo muito bem.  Parou abruptamente. Estava fazendo tudo errado.  Lamento no ter lhe contado antes, na Tunsia  disse com mais calma.  Simplesmente, no tive coragem.
	Achou que quem devia saber primeiro era o pai.  Aquilo foi uma declarao, no uma pergunta.
Por um momento, Vitria no entendeu onde ele queria chegar. S depois, quando sentiu o sangue fugir do rosto e um n na garganta, compreendeu o comentrio.
	Voc planejou ter esse filho?  perguntou ele, com uma expresso assustadora.
O choque foi to grande que as palavras pareciam ter congelado na garganta. Mas Vitria conseguiu balanar a cabea enquanto lentamente se levantava, olhando para ele com repulsa e desprezo.
	Ento, foi um acidente. De sua parte, pelo menos. Mas no tenho dvidas de que Howard sabia exatamente o que fazia. Est apaixonado por voc, e viu que essa era a oportunidade perfeita para conquist-la. Esse  o nosso nobre e inocente William, no ?
	Voc no est entendendo...
	Estou, sim.
	Eu no... ns no...
	No me venha com essa. Devia saber que isso iria acontecer quando foi procur-lo. Voc sabia. Morou na casa dele. E, depois, Howard a visitou na Tunsia... quantas vezes? Duas, trs, quatro? Ele queria mant-la escondida, ganhar tempo para convenc-la de que havia se casado com o homem errado. E teve mais sucesso do que se poderia imaginar.
	No foi assim  reclamou ela. Por que Zac no a escutava?
	Eu podia entender a forma como voc reagiu ao saber sobre Gina  continuou ele, secamente.  Podia at aceitar voc ter escolhido fugir, em vez de ficar e esclarecer as coisas comigo, por causa da falta de comunicao em sua infncia e de seu medo de confrontos. Mas issol
Ento, Zac se virou, ignorando-lhe o apelo, e afastou-se sem olhar para trs. Entrou em casa e desapareceu de vista enquanto ela o observava, paralisada.
Permaneceu onde estava, sentindo a brisa suave do vero por mais alguns minutos, uma dor de cabea latejando no mesmo ritmo das batidas de seu corao.
Zac julgava que o filho era de William!
Vitria ainda no conseguia acreditar. Ele realmente achava que estava grvida de outro homem. Como podia pensar tal coisa? Como ousava? A confuso cega deu lugar  fria.
Bem, no pretendia implorar para que acreditasse nela. Zac que pensasse o que bem entendesse. Casara-se por interesse, por mais que tentasse convenc-la do contrrio. Como ousava bancar o marido ofendido?
Quando Vitria levantou-se e dirigiu-se  casa, sentia um misto de orgulho ferido e uma profunda rejeio. Zac no sabia perder, esse era o maior problema, pensou ao passar pela saleta cheirando a rosas e entrar na cozinha. Queria uma mulher graciosa para bancar a anfitri diante dos amigos, agir como mquina reprodutora, dando a luz outra gerao dos Harding e,  claro, uma amante para lhe dar prazer. Mas seus planos foram descobertos.
Tivera muitas oportunidades de lhe contar a respeito de Gina, antes do casamento. E, se a histria ridcula sobre a me da moa telefonar, pedindo que ajudasse a filha, fosse verdadeira, por que ele no lhe explicara tudo na hora? Que tipo de homem comprava um apartamento para a ex-amante? Zac devia pensar que, alm de ingnua, Vitria tambm era tola. Bem, no pretendia perder o sono por causa disso.
Zac surgiu da imensa sala de visitas com o rosto sombrio e srio assim que Vitria entrou no hall. Ela o encarou corajosamente.
	Estou indo.  Lanou-lhe um olhar furioso e mordaz, mas Zac a pegou pelo brao e a virou.
	S quando eu quiser. E ainda no quero.
	Solte-me.  Vitria no reagiu fisicamente, permanecendo imvel e digna, o rosto petrificado. E sua postura nobre pareceu irrit-lo ainda mais.
	Por qu? Voc ainda  minha esposa  disse ele amargamente, os olhos faiscando.
	Apenas no papel.  Vitria tentou ignorar o fato de seu corao bater feito um tambor diante da proximidade de Zac, o magnetismo e a seduo de sua virilidade dominando-a mesmo naquele momento de raiva.
Ser que ele e Gina tambm brigavam? A ideia veio-lhe  mente de forma dolorosa. Gina era uma italiana de sangue quente; Zac, filho de italiana. Deviam ter um relacionamento bastante passio-nal. E, sem dvida, se divertiam a valer fazendo as pazes. Pensar nisso a deixou ainda mais tensa.
	Ento, talvez devamos fazer algo a respeito  sugeriu ele com doce veneno na voz.  No tenho mesmo nada a perder.
	No ouse me tocar!  gritou Vitria quando Zac a puxou para junto de si.  Odeio voc!
	E ama o nobre William  retrucou ele asperamente.  Que criatura mais inconstante  voc, querida. Ou sempre o amou? Ser possvel que, em seu desejo de me castigar, voc tenha sido atingida?
	Solte-me, j disse.  Vitria estava assustada. Aquele homem furioso no se parecia em nada com o cavalheiro gentil e carinhoso por quem se apaixonara.
	Quem  voc para se dar ao direito de me julgar?  prosseguiu ele, o corpo roando o dela.  No tive chance de me defender. Fui condenado, expulso de sua vida como se fosse um monte de lixo. Mas era o seu corpo que estava sob o meu em nossa noite de npcias. Seus lbios imploravam por mais, dizendo meu nome sem parar. Eu estava l... e sei que naquele momento voc no pensava nele.
	Pare com isso, por favor.  Vitria tinha decidido no implorar por mais nada, mas se viu fazendo exatamente o contrrio.  O que quer de mim, afinal?
	Quando nos casamos, pensei que ficaramos juntos para sempre, Tory. Como pde fazer isso conosco?  perguntou ele dolorosamente.
E a beijou. No um daqueles beijos persuasivos e apaixonados, que sempre a excitaram e a deixaram querendo mais. Um beijo ardente e brutal, do qual Vitria tentava se esquivar. Zac inflamava o desejo de ambos na busca por sua boca, mos e corpo. Ela sabia o que ele tentava fazer, o que tentava provar: que ainda o desejava. Ao cons-cientizar-se disso, ficou chocada e humilhada. Como podia fazer amor com Zac depois de tudo? Onde fora parar seu orgulho, sua auto-estima?
	Voc me quer...  disse ele. Suas mos agora deslizavam pelo corpo feminino.  Eu poderia possu-la agora. Voc me deseja, Vitria.
	No!  afirmou ela, mas mentia, e ambos sabiam disso.
	No adianta negar.  Zac tornou a beij-la, sensualmente. Quando Vitria comeou a se der-
_reter em seus braos, ele a empurrou para longe.  Mas eu no a quero.  Fitava-a com olhos irados, o rosto tenso, o corpo rgido.  No com o cheiro daquele homem. Que tipo de mulher  voc? Como pode fazer uma cena daquelas com William e reagir a meu toque com tanto fervor?
	Cena? Que cena?  perguntou Vitria, odiando e amando Zac ao mesmo tempo.  William apenas me pagou o almoo, nada mais.
	 sempre assim to grata quando algum a leva a um restaurante?  retrucou Zac com zombaria.  Est se vendendo por muito pouco.
Se ela estivesse segurando algo, teria atirado nele.
	Seu...
	Sem rtulos, por favor.
	Eu no precisaria recorrer a William se voc no tivesse acomodado sua amante num espalhafatoso ninho de amor!  gritou Vitria, usando o ataque para esconder a dor que a torturava.  Sabe disso to bem quanto eu. No vou ficar aqui ouvindo suas acusaes.
Vitria surpreendeu a ambos com a velocidade na qual saiu pela porta da frente. Continuou correndo at mesmo quando a quietude da noite de vero foi abalada pelo grito de Zac:
	Vitria!
Ele a alcanou alguns metros adiante. Quando a pegou pelo brao e a fez voltar-se, a mo de Vitria voou sobre seu rosto. O som da bofetada ecoou na noite e, por um instante, tudo pareceu parar. Enquanto os segundos passavam, e ambos continuavam imveis, Vitria engoliu em seco.
	Sinto muito  disse, trmula, aps o que pareceu ser uma eternidade.  Eu no devia ter feito isso.
Zac nada disse por mais alguns instantes. Em seguida comunicou, com voz inexpressiva:
	Levo voc para casa.
	No h necessidade. Encontrarei um txi.  A vontade de chorar era forte, mas Vitria resistiu bravamente.
	J disse que a levo.
Ela achou melhor no o contrariar. Sentia-se estranha e, na verdade, no confiava nas prprias pernas trmulas para chegar at o Jaguar. Andou cambaleante, com a cabea girando sem parar.
Ele fez com que entrasse no carro e fechou a porta. Em seguida sentou-se atrs do volante. Vitria o observou. Zac estava furioso. A marca de seus dedos continuava visvel em seu rosto. No podia acreditar que o agredira. Por mais que o provocasse, ele jamais levantaria um dedo para machuc-la. O pensamento a fez sentir-se pior.
Percorreram vrios quilmetros em silncio, antes de Vitria dizer baixinho:
	Deixei o nmero do meu novo telefone com sua secretria. O apartamento que aluguei fica em Richmond, na...
	Sei onde   interrompeu Zac secamente.
Claro. Sua me. Sem dvida, ela estava tentando desesperadamente cair de novo nas boas graas de Zac, mantendo-o informado sobre o paradeiro da filha. Carol no fez outra coisa alm de pedir-lhe que voltasse para o marido desde que Vitria chegara da Tunsia. Fora justamente por temer esse tipo de coisa que ela no contara  me onde se encontrara nas primeiras duas semanas aps o casamento. Na certa, ela imediatamente diria a Zac.
Carol estava mais preocupada em encher os cofres da Chigley-Brown com o lucrativo acordo financeiro que seus advogados haviam firmado com o imprio Harding. Acordo que o comportamento escandaloso da filha colocava em risco. Obviamente, Zac soube a respeito do apartamento antes mesmo de Vitria receber as chaves.
No disseram mais uma palavra no trajeto at Richmond. Quando Zac entrou na charmosa vizinhana na qual o apartamento se situava e parou o carro, Vitria abriu a porta e saiu.
	Adeus.
Ele contornou a frente do carro e parou diante dela, com ar sombrio e srio, sem demonstrar emoo.
Adeus, Tory.
Naquele momento, Vitria entendeu que Zac estava realmente se despedindo. Do apelido que lhe dera, e que tinha tantas conotaes ntimas para ambos. Do casamento, de seus sonhos, das esperanas para o futuro. E ela no conseguiu suportar. No podia suportar...
Por um longo tempo, a verdade permaneceu em seus lbios. Queria dizer a ele que no dormira com William, que eram apenas amigos, e que jamais deixaria que outro homem tivesse acesso a seu corpo e a seu corao. Queria dizer que a criana que carregava no ventre era dele, e que a queria mais do que qualquer outra coisa justamente porque era dele. Parte de ambos.
A luta interior que travava devia ter ficado evidente, pois ele apertou os olhos e perguntou:
	O que foi? Algum problema?
Vitria continuou a encar-lo. Os motivos que a fizeram fugir permaneciam ali. Algo que sua me deixou escapar, por engano ou propositadamente, sobre Gina ter comparecido a um compromisso social ao lado de Zac, no lhe saa da cabea.
Desconfiava que Carol havia tocado no assunto com a inteno de encium-la, de faz-la lutar por ele... mas o efeito foi justamente o contrrio.
No pretendia lutar por Zac. Olhou para aquele rosto bonito, familiar, que amava tanto. Se cedesse, acabaria tendo que travar a mesma batalha o resto da vida. Haveria sempre uma Gina na vida daquele homem.
Ela jamais conseguiria adaptar-se a esse tipo de relao. Amava Zac demais para, conscientemente, dividi-lo com outras mulheres.
Criaria aquela criana a seu modo, disse a si mesma com determinao. O filho aprenderia os valores da me. E era melhor que Zac no suspeitasse que aquela criana era dele. Desse modo, os deixaria em paz.
	Vitria? O que foi?  perguntou ele novamente.
Ela encontrou foras para balanar a cabea e dizer:
	No foi nada. Adeus, Zac.  E afastou-se, deixando-o parado na calada.
Era desse modo que os casos de amor terminavam?, perguntou a si mesma enquanto procurava desesperadamente pela chave. Entrou sem olhar para trs. Lgrimas amargas escorriam-lhe pelo rosto enquanto ouvia o ronco do Jaguar desaparecer a distncia.

CAPTULO IV

O ms de julho passou, aps uma sequncia de dias quentes e de longas noites angustiantes, solitrias. No entanto, quando agosto comeou, trouxe uma bem-vinda mudana, com temperaturas mais baixas e suportveis. Vitria se sentiu melhor, pelo menos fisicamente. Suas emoes eram um caso  parte.
Entrava no quinto ms de gravidez e, embora sua cintura engrossasse a cada dia, os enjoos ficaram para trs. E, apesar da. tristeza que a perseguia em todos os momentos, viu-se comendo feito um lobo, ou melhor, dez lobos.
Tirou e roupo e olhou-se no espelho. No estava to mal, considerando-se as circunstncias. No que esse quadro fosse durar por muito tempo, pensou.
Mas que importncia tinha engordar um pouco, concluiu ao se vestir, desde que o beb estivesse saudvel? Oh, como queria esse filho... Abraou a si mesma, os cabelos cobrindo-lhe o rosto como uma cortina de seda.
Ergueu a cabea. Nada daria errado. Era jovem, saudvel e em excelente forma fsica. Seu beb estava perfeitamente seguro.
Olhou para a garota no espelho, os olhos azuis estreitados. Seria uma boa me. Afinal, conhecia o outro lado da medalha, e, tendo Carol como exemplo, sabia exatamente o que no fazer. Aquela criana teria amor, muito amor, suficiente para cobrir a falta de avs carinhosos. E de um pai.
Zac, de repente, lhe veio  mente e a dor foi mais intensa do que nunca, fazendo-a dar as costas para o espelho e andar rapidamente em dire-o  minscula cozinha. Havia preparado um desjejum composto de torradas e ovos com bacon, sem se importar com as calorias.
J passava das oito quando saiu do apartamento. O ar da manh estava fresco, naquele dia tpico de comeo de agosto. A mudana brusca no tempo causava tempestades, o que a agradava. Era doloroso ver Londres inteira feliz, quando ela se sentia to infeliz. Disse a si mesma que estava sendo impertinente e maldosa. S porque se sentia amargurada, no significava que o restante do mundo devesse sentir o mesmo.
	Vitria?
Ela estava to preocupada em correr para casa antes da chuva que esbarrou em cheio em Zac antes de v-lo. E, se ele no a tivesse segurado pelo brao quando escorregou na calada, teria cado sob as rodas de um nibus.
	Ei, que h com voc? Devia olhar por onde anda  resmungou, sem a soltar at v-la segura do outro lado da calada.
	Comigo? Mas foi voc quem esbarrou em mim!  protestou ela quase sem flego, o rosto corado ao fit-lo.
	Desculpe.
Ah, como Zac estava bem... Seu frgil equilbrio vacilou e Vitria achou melhor pensar em outra coisa. Desvencilhou-se dele. Comeava chover, como em todas as manhs na ltima semana. S ento ela se lembrou de que havia esquecido o guarda-chuva. Detestava se molhar.
	O que est fazendo aqui?  perguntou ela firmemente.
Desde a visita desastrosa  casa de ambos, Zac no tentara v-la. Nem sequer telefonara. E, agora, l estava ele,  sua espera, perto do prdio.
	Preciso falar com voc.
Disse aquilo com tanta frieza que Vitria teve vontade de chorar. Como haviam chegado quele ponto? Mas, afinal, ele no era mais seu, era? Era de Gina, e a estava a razo de toda a sua tristeza. O rosto forte e moreno de Gina, os olhos castanhos aveludados e vibrantes surgiram-lhe na mente, deixando-a ainda mais infeliz. Tentou conter a angstia e endireitou-se.
	Sobre o qu? Julguei que j tnhamos dito tudo o que havia para dizer.
	Voc devolveu meu cheque  disse ele, com ar irritado. Em seguida, quando a chuva se transformou num aguaceiro que ameaava ensop-los, ele disse em tom imperioso:  No podemos conversar sob esse temporal. Meu carro est logo ah. Vamos.
	Prefiro no ir.
Uma simples frase. No entanto, pela expresso de Zac, parecia t-lo ofendido. As pessoas no costumavam dizer "no" a Zac Harding. Nunca.
Vitria...
Ela ergueu a cabea.
	Voc est me atrasando para o trabalho. Adeus.
O ar indiferente e frio se foi. O rosto de Zac se transformou quando a pegou pelo brao.
	No precisa trabalhar nessa lojinha medocre.
	Acontece que gosto de trabalhar naquela "lojinha medocre"  retrucou Vitria curtamente.
E era verdade. De fato, gostava. Quatro semanas antes, ao se apresentar para preencher a vaga de assistente temporria, no sabia o que esperar. No imaginou que seria aceita e surpreendeu-se quando, naquele mesmo dia, chamaram-na para conhecer a proprietria.
A sra. Bretton era baixinha, rolia e simptica, e a entrevista acabou se transformando numa conversa agradvel, regada a ch. A senhora lamentou a falta de responsabilidade da prpria filha, co-proprietria da floricultura, que resolvera acompanhar o marido numa viagem de trs meses aos Estados Unidos.
	Meu genro est sempre indo para c e para l, a negcios,  confidenciara a mulher de meia-idade, no final da conversa.  E, francamente, acho que minha Megan teme que possa se envolver com alguma aventureira. Suponho que queria ficar de olho no marido dessa vez, j que a viagem  to longa. No imagina como fiquei chocada quando ela telefonou uma noite dessas pedindo que arrumasse algum para substitu-la na loja por algumas semanas...  A sra. Bretton suspirara, resignada.
Vitria balanou a cabea, compreensiva.
	Entendo.
	Sendo assim, preciso de ajuda. Apenas at minha filha voltar. Sei que no  l grande coisa, mas...
	Est timo, fique tranquila.
O emprego era perfeito, pensou Vitria, principalmente naquelas circunstncias. O dinheiro no era mau, e a sra. Bretton havia dito que poderiam mudar os horrios de acordo com as convenincias das duas. Alm disso, trabalhar num ambiente to perfumado, a apenas algumas quadras do lugar onde morava, seria timo. E, quando falou sobre o beb, percebeu que tinha encontrado uma amiga.
	Por que devolveu meu cheque esta manh?  Zac a trouxe  realidade. No entanto, mais uma vez ela esquivou-se, verificando as horas no relgio de pulso com ar preocupado.
	Desculpe, mas preciso ir.  Fitou-o enquanto os pingos de chuva formavam pequenos cristais brilhantes nos seu cabelo escuro.  Telefono para voc esta noite. Est bem assim?
	Como est se sentindo?. A pergunta foi direta e inexpressiva.
No era o que esperava ouvir dele. Contemplou-lhe o rosto por um longo tempo, a boca levemente entreaberta, antes de conseguir responder:
	Bem, obrigada.
	Est se alimentando direito?
	Sim  disse ela rapidamente, sabendo que, se no sasse dali, aquela demonstrao de preocupao, por mais desajeitada que fosse, a faria chorar feito um beb.  Adeus.
Zac a deixou ir sem dizer uma palavra. Tinha os olhos imperturbveis fixos nela, e as mos enfiadas nos bolsos da cala.
A floricultura ficava na esquina seguinte. Quando Vitria abriu a porta, e o pequeno sino  entrada anunciou sua entrada, percebeu que o corao batia em disparada, como se tivesse corrido uma maratona.
Por que Zac no telefonara, se queria se opor  devoluo do cheque?, ela se perguntou ao colocar braadas de cravos vermelhos e papoulas num cesto. Podia ter telefonado.
Conhecendo Zac como conhecia, podia apostar que ele sabia de todos os seus passos. E os de William. Devia estar ciente de que seu amigo estava fora do pas havia trs semanas.
Ser que ele estaria se rendendo? Faria algum tipo de proposta de paz? Um desejo de colocar o relacionamento dos dois num nvel mais civilizado?
Levantou-se depressa, apertando um cravo inocente com tanta fora que o quebrou ao meio.
Estava imaginando coisas. Um homem orgulhoso como Zac no aceitaria a ideia de ver a prpria esposa grvida de outro homem, como pensava. Ele a odiava. Vira isso em seus olhos naquela noite, quatro semanas atrs. E nada mudara desde ento.
Devolvera o cheque de Zac poque estava decidida a sobreviver sozinha, mas ele era orgulhoso demais para aceitar. Tinha mais dinheiro do que conseguia gastar e, provavelmente, encarava aquela pequena ajuda financeira como um blsamo, aliviando a prpria conscincia. Se  que ele possua uma...
No queria o dinheiro daquele homem. Olhou para a cesta e no gostou do efeito. Resolveu comear tudo de novo.
A sra. Bretton estava encantada com sua habilidade em fazer arranjos. Normalmente, era a filha quem cuidava disso. Ela mesma confessou ser muito desajeitada manualmente para lidar com coisas delicadas.
Vitria tirou todas as flores do cesto. Tirou da mente a imagem do homem alto, moreno e atraente, com cabelos e olhos negros como a noite que forava a entrada em seus pensamentos.
Deixou a loja s cinco, aps um dia exaustivo. A chuva e vento da manh deram lugar a um tranquilo final de tarde de vero, impregnado com o aroma de uma cidade recm-lavada pela chuva. Parou por um momento, olhando para o cu azul, sentindo o sol aquecer-lhe o rosto. A depresso a rondara o dia inteiro, como uma pequena nuvem negra esperando para cair sobre sua cabea, aps seu inesperado encontro com Zac. Um encontro que a perturbara mais do que esperava.
Tentou afastar a fraqueza e comeou a voltar para casa. Aps dar dois passos virou na direo oposta. Precisava comprar roupas. Ainda no tinha modelos de grvida, e o vestido que usava estava apertado no busto e na cintura.
Passou uma hora surpreendentemente alegre e relaxada fazendo compras, escolhendo sutis de renda novos e sensuais. Alm de bluses e calas compridas, comprou dois vestidos no particularmente desenhados para gestantes que, no entanto, escondiam suas formas maravilhosamente. Os preos naquela butique eram excelentes.
Resistiu  tentao de comprar mais. No podia se dar a esse luxo. Precisaria de roupas mais quentes nos dois ou trs meses seguintes.
No caminho de casa, passou por um cabeleireiro conhecidssimo e marcou uma hora para o dia seguinte. Precisava dar um jeito no cabelo.
Um dos inesperados benefcios do seu estgio de gravidez era a excelente condio do cabelo e da pele, concluiu, virando a esquina de casa. Sua pele, normalmente seca, agora estava mida e macia, e o cabelo ganhara um brilho que nenhum condicionador artificial conseguiria proporcionar. Afinal, hormnios tambm tinham seu lado bom.
A pequena conversa consigo mesma terminou abruptamente, ao erguer os olhos e deparar com o Jaguar prateado parado em frente ao prdio onde morava.
Zac! Seu corao quase parou e, em seguida, voltou a bater com mais fora. Viu-o tranquilamente acomodado no banco do motorista. O que ele queria agora? Tornar a discutir?
Observou-o vir em sua direo, como um coelho hipnotizado diante do predador prestes a atacar. Somente quando Zac parou a sua frente foi que conseguiu reunir foras para falar:
	Julguei que tivesse entendido quando eu disse que telefonaria esta noite  disse com firmeza, olhando para o rosto bonito que assombrava seus dias e suas noites.
	Voc no disse que telefonaria, mas que pretendia telefonar.  A voz de Zac estava controlada, firme e muito fria.
	No precisava ter se dado ao trabalho de vir at aqui. Poderamos resolver tudo pelo telefone.
	 sobre o divrcio que quero conversar, e prefiro fazer isso pessoalmente.  A voz dele agora parecia contida.
Vitria o fitou. Doa-lhe muito falar sobre o divrcio, mas Zac no parecia afetado. E por que estaria? Da parte dele, no havia sentimentos envolvidos. Apenas orgulho.
O pensamento a enfureceu.
	Muito bem, ento acho melhor entrar  disse ela, procurando a chave.
	Obrigado.
A voz soou com ironia e frieza, mas Vitria o ignorou. Abriu rapidamente a porta e entrou, rezando para manter o autocontrole.
Zac era detestvel! Como conseguia ser to controlado e imperturbvel quando cada nervo dela tremia?
	 bem agradvel  disse ele ao entrar.
	Sim, tive muita sorte de encontr-lo, e no momento exato. Minha me conhece algum...
	No duvido disso.  Agora, era sarcasmo mergulhado em puro veneno. Tornou-se bvio que ele ainda no havia perdoado Carol.
	Ser que no podemos agir como pessoas civilizadas?
Ele a fitou intensamente, sem dar mais um passo para dentro do apartamento.
Talvez. Mas antes eu quero esclarecer uma coisa. Devolveu o meu cheque porque William Howard a est sustentando?  perguntou ele sem rodeios.
No!  A indignao era sincera e transparente.
 No preciso da ajuda dele. Nem de ningum.
	Um comentrio questionvel...  Zac olhou para o ventre volumoso.  Mas no vamos discutir isso agora.  Fechou a porta e entrou na bonita sala, bastante feminina.  Quando pretende dizer a Carol que ela ser av?  perguntou assim que Vitria sentou-se em uma das poltronas.
A sala era pequena, assim como os outros trs cmodos que compunham o elegante apartamento. As duas poltronas, junto com a mesa de centro, o aparelho de televiso porttil e o som com alguns CDs empilhados sobre a prateleira presa  parede era toda a moblia de que ela dispunha.
A pergunta de Zac a deixou confusa. Esperava que ele j tivesse se vingado.
	Ainda no sei, mas acho que em breve.
	O que est esperando?
Sua voz estava quase sem expresso, mas nem por isso menos assustadora. E, novamente, ela usou de sinceridade ao dizer:
	Mame no se importar com a criana. Somente se aborrecer ao ser forada a reconhecer que tem idade para ser av. Na certa vai considerar isso como uma afronta pessoal.
	No  o fato de seu filho ser ilegtimo que a manteve quieta at agora, ?  perguntou ele friamente.
Ah, Zac era bom nisso. Sabia exatamente onde apertar e causar mais dor, pensou ela, amargamente. Aguardou um instante antes de encontrar foras para responder:
	Na verdade, no dou importncia ao que ela pensa.
	Mas pretende contar a verdade a Carol, no pretende? Inclusive a participao de nosso querido William?
A verdade? Como ela poderia dizer a Carol que o filho era de Zac, sabendo que a me correria para o telefone a fim de lhe contar? Tambm no podia dizer que William era o pai. Nem sequer contara ao amigo sobre as suspeitas de Zac. Ele nem sequer suspeitava que era tido como pai da criana.
	Vitria?  Zac no pretendia deix-la em paz.
Ela ergueu os olhos torturados.
	Fique tranquilo. No pretendo mentir para minha me.  Na verdade, ela no fazia ideia do que iria dizer.
Ele assentiu, permanecendo em p por mais algum tempo. Em seguida, sentou-se.
	Suponho que tambm tenha usado essa sua admirvel honestidade para com sua patroa?  perguntou ele calmamente, cruzando as pernas e recostando-se, como se estivesse completamente  vontade.  Sra. Bretton, no ?
A pose salientava sua marcante masculinidade, fazendo-a prender o flego. Naqueles dias de vinte-e-quatro-horas-de-enjo-matinal, Vitria descobrira que a nusea constante era o melhor anti-afrodisaco que existia. No entanto, desde que passara a se sentir melhor, horrorizava-se com os pensamentos e sonhos erticos que tinha com o marido.
O que, nas atuais circunstncias, era bastante humilhante. Zac era forte e sensual, e possua algo indefinvel, capaz de fazer qualquer mulher sentir os joelhos fraquejando. Ele era... bem, era Zac Harding. E no havia ningum igual.
Vitria tentou no olhar para aquele corpo maravilhoso, esperando que ele julgasse que o rubor em seu rosto se devesse ao encontro inesperado, ou ento  situao. Tentou manter a voz to controlada quanto a dele ao dizer:
	Se est perguntando se a sra. Bretton sabe que estou grvida, a resposta  sim. O emprego  temporrio, at que a filha dela volte dos Estados Unidos, no comeo de novembro.
	E, depois disso, pretende fazer o qu?  perguntou ele baixinho, olhando fixamente para o rosto ruborizado.
	Ainda no decidi  respondeu ela vagamente.
Gostaria de ter tomado um banho ao chegar
em casa, trocado de roupas, quem sabe colocado um dos vestidos que acabara de comprar, passado batom, escovado os cabelos...
Oh, devia parar com aquilo! Afinal, a quem tentava impressionar? Achava mesmo que, caso se enfeitasse, atrairia o desejo daquele homem magnfico? Ele tinha Gina, ardente e apaixonada, ao alcance das mos.
Vitria respirou fundo, e sua voz estava mais firme ao prosseguir:
	A sra. Bretton disse que talvez me contrate, mas para trabalhar somente na parte da manh, na poca de Natal, quando a loja tem mais movimento.
	Ah, que timo!  exclamou ele com detestvel sarcasmo.  E consentir que voc deixe o beb no fundo da loja, enquanto continua a fazer seu trabalho, seja l qual for.
	Oua...
	No, oua voc  disse ele bruscamente, endireitando o corpo num salto.  No precisa trabalhar. Sabe disso to bem quanto eu. Posso muito bem lhe pagar uma quantia mensal at o divrcio e a partilha de bens.
	Por qu?
Para Zac, ela estava grvida de William Howard. E ser magnnimo no era uma de suas caractersticas mais marcantes. No fazia sentido, mas Vitria no conseguiu entender o que ele pretendia.
	Por qu?  Zac deu de ombros e em seguida, com os olhos brilhando, levantou-se e atravessou a pequena sala, ficando de p junto  janela, olhando para a rua silenciosa.  Porque voc  minha esposa, e legalmente tem direito a parte de meus bens.
	No quero nada seu.
	No pode estar falando srio.  Zac disse aquilo sem se voltar para encar-la.  Vai precisar do dinheiro.
	Ficamos casados durante apenas vinte e quatro horas. Talvez nem isso. No me considero casada, no verdadeiro sentido da palavra.
	Mas o casamento foi consumado.  Zac se voltou, fazendo-a corar.  No esqueceu nossa noite de npcias, esqueceu?
	Claro que no.  As imagens continuavam vvidas em sua mente.  No precisa me pagar indefinidamente por uma nica noite de sexo.
Ele ficou imvel por um momento infinito, antes de responder:
	Para voc, foi apenas sexo, no foi? O que houve? De repente percebeu que se casou com o homem errado? Por isso correu para Howard na manh seguinte?
	Sabe muito bem que no foi assim. Foi por causa de voc e de Gina.
	Deixe Gina fora dessa histria. O fato  que saiu da minha cama e se jogou na dele, como voc mesma to sucintamente ressaltou. Sabia que Wil-liam era louco por voc, e provavelmente adorou man-t-lo a seus ps durante anos. Tinha certeza de que, quando aparecesse na casa do rapaz como uma donzela abandonada, seria recebida de braos abertos.
	Como pode me pedir para "deixar Gina fora dessa histria" quando vocs...  No podia chorar diante dele, pensou, desesperada ao sentir os lbios tremerem, e os olhos se encherem d'gua.
	Dane-se.  Zac atravessou a sala e a puxou da cadeira de balano.  Quem  voc realmente? Virou minha vida de cabea para baixo...
	No fiz nada disso. E no ouse me culpar.
Ento, ele a beijou ardentemente, com o corpo tenso como o ao e os braos firmes, segurando-a junto de si at que Vitria perdesse o flego.
As lgrimas secaram diante do choque, do antigo desafio que o corpo masculino lanava. E, para seu eterno constrangimento, ela se deixou dominar pelo desejo ardente e correspondeu como uma mulher faminta a quem ofereceram um pedao de po.
O beijo a deixou em brasa e, ao corresponder com total abandono, Vitria ouviu Zac gemer enquanto acariciava seus seios volumosos e sensveis.
Vitria achou que acabaria desmaiando e sussurrou, entorpecida:
	Zac...
Suas pernas tremiam tanto que mal conseguiu se manter de p. Mais um minuto e ele a deitaria no carpete. Iria possu-la ali mesmo, na minscula sala de estar. E Vitria no pretendia impedi-lo. No teria foras.
Ento, inesperadamente, o telefone tocou. E continuou a tocar.
Foi Zac quem primeiro se controlou, levantando a cabea.
	Acho melhor voc atender  disse, calmamente.
Vitria ficou um momento paralisada, a cabea girando e os ouvidos zunindo. Em seguida, lentamente, ajeitou o vestido e foi atender o telefone no corredor. Precisou respirar fundo duas ou trs vezes antes de tirar o fone do gancho.
Fez um esforo enorme para falar normalmente, mas mesmo assim sua voz deve ter soado estranha, pois William pareceu ansioso ao dizer:
	Vitria?  voc mesma? Algum problema? Est bem?
	Sim, sou eu. E... estou bem. E que... acabei de chegar em casa. Tive um dia cansativo.
Vitria percebeu um movimento brusco mais atrs e, em seguida, um silncio absoluto. Mas podia sentir o olhar penetrante de Zac em sua nuca. William continuou:
Espero que no esteja exagerando, Olhos-Azuis. No h necessidade disso. J me prontifiquei a ajud-la.
Vitria tinha dois homens dispostos a sustent-la e no podia viver com nenhum.
	No, realmente, estou bem. Por favor, William, no vamos falar sobre esse assunto. No agora.
	Tudo bem.  William no parecia convencido.  Oua, estou ligando para dizer que continuo na sia, mas devo voltar daqui a duas semanas. As coisas esto mais complicadas do que imaginvamos e ainda temos muito o que resolver. Portanto, no fique preocupada, certo?
	Certo. Tenha... cuidado.  Vitria sentia a nuca arder.
	Voc me conhece, Olhos-Azuis. Agora, cuide de si mesma e no hesite em pedir ajuda se precisar. Afinal, para que servem os amigos? Use-os de vez em quando. Telefono assim que voltar para Londres. Cuide-se.
Vitria conseguia ouvir algo parecido com tiros ao fundo, junto a outros rudos e muita agitao. Ficou preocupada com a segurana do amigo.
	No se arrisque, William. No tente bancar o heri.
	Prometo.  Em seguida, alegremente, ele prosseguiu:  Voc j est falando como me! Preciso ir agora, Olhos-Azuis.
	Obrigada por telefonar.  Ela recolocou o fone no gancho, e permaneceu em silncio enquanto voltava para a sala, encarando o rosto tenso de Zac.  Era William. Ele est viajando a negcios.
		Deu para perceber.
A mudana em Zac era total, na voz, nos olhos, e seu rosto parecia mais frio que a neve.
	Ele... s estava preocupado comigo...
	No estou interessado. Nem em voc, nem nele. Daqui para a frente, os advogados cuidaro dos detalhes do divrcio.
Zac estava furioso. Mais consigo mesmo do que com qualquer outra coisa. Por ter fraquejado. Vitria o amava e, naquele exato minuto, se pudesse voltar ao tempo em que se conheceram, o perdoaria por tudo. Gina, o acordo com sua me, tudo.
Mas Zac no pediu o seu perdo. A dura realidade era essa. E jamais pediria. Vitria o viu sair sem dizer uma palavra, sentindo o corao congelar. Somente algum tempo depois, sozinha na cama, percebeu que o gelo comeou a derreter.
Talvez tivesse sido necessrio passar por aquele ltimo confronto. Sem sono, ela levantou e foi at a cozinha, preparar uma xcara de caf bem forte. De qualquer modo, no conseguiria dormir. Portanto, permitiu-se desfrutar de um de seus maiores prazeres: o caf.
Foi para a sala de estar, sem acender as luzes. Parou diante da janela, olhando a vizinhana enquanto saboreava o lquido fumegante. No queria o dinheiro de Zac. S queria um sinal de seu arrependimento, de que reconhecia ter sido cruel. Seria pedir muito? A resposta lhe veio alta e clara  mente.
Duas pessoas de mundos diferentes. Zac alegou que no a conhecia, mas ela o conhecia ainda menos...
A dor que a assaltou era maior do que podia suportar. Deixou a xcara sobre a mesa, os olhos marejados pelos lgrimas.
Conhecia apenas o estilo de vida agitado e sofisticado de Zac. Afinal, seus pais viviam da mesma forma. Mas confiara em que ele seria diferente. Teria sido ela a culpada? Teria assumido algo que no devia ter dado como certo? Fosse como fosse, sabia que jamais voltaria a abrir a porta de seu corao, ou de seu corpo, para Zac.
Sozinha naquele momento de completa desolao, Vitria percebeu que a pequena chama de reconciliao que manteve acesa dentro de si comeava, lentamente, a se apagar.

CAPTULO V

Trs semanas depois, William retornou a Londres. E, a essa altura, j no quinto ms de gravidez, Vitria havia se convencido de que deveria contar  me sobre o beb.
Ela no tinha notcias de Carol h mais de um ms, e o ltimo encontro fora particularmente amargo. Vitria decidiu que, assim que encontrasse William, iria coloc-lo a par das suspeitas de Zac. Em seguida informaria  me que em quatro meses seria av. No pretendia dar maiores explicaes a ningum, desde que William concordasse em prosseguir com a farsa.
O amigo havia telefonado na noite em que chegou. Combinaram ver-se no final da semana, para almoar juntos. Vitria ficou surpresa quando, ao se preparar para trabalhar, recebeu um telefonema de William.
	Querida? Pode me dizer o que est havendo? Os investigadores de seu marido devem ser mesmo eficientes, pois o mantm informado sobre meus passos ao redor do mundo. s sete da manh de hoje ele quase colocou minha porta abaixo.
	Oh! Desculpe  disse ela, mortificada.
	Em parte por ainda estar meio desorientado em funo do fuso horrio, deixei que ele dissesse a que veio. E me pareceu, quando consegui faz-lo se acalmar e tomar uma xcara de caf, que ele acha que ns... como direi?... fizemos um beb. Esse beb... o beb dele.
	O que voc disse?  sussurrou Vitria, acariciando a barriga.
	Que isso era absolutamente impossvel  respondeu ele alegremente, nada perturbado com os acontecimentos.  Zac estava enlouquecido... Exigiu minha palavra de que eu cuidaria de voc e do beb, e que jamais deixaria de cumprir com minhas responsabilidades. O que est havendo, afinal?
	Oh, William, eu sinto muito, de verdade.  Ela devia ter contado logo sobre as suspeitas de Zac, em vez de esperar at o fim de semana.
	Disse a ele que eu era o pai?
	Claro que no! Contei a Zac que estava grvida, e ele achou que o filho fosse seu.
	No fez nada para que ele mudasse de ideia?  William a condenava, e com razo.  Sabe que eu adoraria) se fosse verdade, Olhos-Azuis. Ns dois sabemos disso. Mas esse filho  de seu marido, e no pode fingir o contrrio.  tanto dele quanto seu.
	No, no !  Vitria queria chorar, mas j tinha derramado lgrimas demais.  Zac perdeu todos os direitos sobre meu filho quando escolheu ficar com outra mulher. Eles que tenham seus prprios bebs... porque este aqui  s meu!
	Lamento, mas voc ter de resolver esse assunto com ele. S posso dizer que estarei sempre aqui para ajud-la, Olhos-Azuis.  s chamar que irei correndo.
	Zac acreditou quando voc disse que no  o pai?
	Sim, acreditou. Creio que algo em minha convico o convenceu.
O beb deu um chute forte, em resposta aos pensamentos desesperados de Vitria. O que faria agora? Zac devia estar furioso.
	Lamento que esteja envolvido nessa histria, William, sinceramente. Eu no queria que as coisas tomassem esse rumo. Naquele dia, tentei a contar a Zac sobre o beb, mas ele entendeu tudo errado.
	Sei disso. Quer que eu fique por perto? Algo me diz que o ver antes do que imagina...
	Obrigada, mas terei de enfrent-lo e explicar o que aconteceu. Tenho certeza de que acabaremos nos entendendo.
	Ser?  A pergunta de William expressava exatamente aquilo que Vitria temia. Zac no lhe facilitaria as coisas.  Telefone, se precisar de mim. Nosso almoo continua de p?
	Talvez seja melhor marcar para um outro dia... Eu telefono, combinando.  No era justo que William estivesse envolvido naquela confuso, principalmente porque a amava. J o tinha usado demais, embora no propositadamente.  Obrigada por ter telefonado, e por ser to bom comigo.
	Tchau, Olhos-Azuis. A impresso que tive  de que Zac ainda a ama.
Vitria colocou o telefone no gancho, pensando no que William dissera. Mesmo que o marido ainda nutrisse algum sentimento por ela, alm de atrao fsica, no seria suficientemente capaz de sustentar um casamento. Ao menos do jeito que Vitria desejava. Com ou sem beb, lhe diria exa-tamente isso quanto tornassem a se encontrar.
E a oportunidade surgiu mais depressa do que ela imaginava. Cinco minutos depois, ela colocava a mo na maaneta para abrir a porta e sair para trabalhar quando uma batida a fez pular de susto. Zac! S podia ser ele. Quem mais bateria em sua porta com tanta autoridade?
	Bom dia.  Seu tom controlado de voz no disfarou quanto estava contrariado.
Ela o convidou para entrar sem responder ao cumprimento. Algo lhe dizia que a manh seria atribulada. J se encontrava na sala de estar quando ouviu. a porta ser fechada. Zac tinha o palet aberto e no usava gravata, o que era incomum.
	Pelo que vejo, voc j andou conversando com Howard. Deve saber que estive na casa dele esta manh.
	Sim, eu sei.	
"Oh, no seja fraca e subserviente", disse a si mesma. "Aquilo no aconteceu por sua culpa. Foi Zac quem tirou concluses apressadas. No entanto, como disse William, voc deixou que acontecesse, no foi?", reprovou a voz da conscincia.
	Sabe em que tipo de inferno voc me colocou?  Zac se aproximou, mas parou ao v-la empalidecer.  E no faa essa cara. No vou machuc-la. Por quem me toma?
	Posso explicar...
	Voc me disse que esse filho era de Howard.
	No, eu nunca disse isso. Foi voc que concluiu, sem me dar chance de explicar.
	Ele jura que vocs nunca fizeram amor, nem chegaram perto. Isso  verdade?
Zac pretendia que ela se desculpasse por no ter dormido com William?
	Sim, . Mas eu nunca disse...
	E sou o nico homem com quem voc fez amor?
Como uma exposio do fato, aquilo no poderia
ser mais detestvel. Vitria ergueu a cabea e disse simplesmente:
	Sim, .
Ser que ela fazia ideia de como estava linda?, perguntou Zac a si mesmo. Os cabelos brilhando como uma aura em redor do rosto em formato de corao, no qual os olhos azuis brilhavam como duas pedras preciosas? Parecia etrea, frgil e, ainda assim, devia ter um corao de ao. Pensar que ela o deixara acreditar que William era o pai o transtornava.
	Que direitos julga ter para tentar me afastar de meu filho? Achou que eu nunca descobriria?
Foi a vez de Vitria apelar para o ataque, no esforo de diminuir a culpa que sentia:
	Oh, lamento no ter feito tudo como esperava.
Voc julgava ter adquirido uma boneca, que poderia ser levada a todas as festas e reunies sociais, e depois deixada de lado enquanto voc se divertia com sua amante. Bem, agradeo, mas no estou interessada. No pretendo receber esse tipo de tratamento de ningum. Agora estou no controle de minha vida.
Vitria ainda no parecia grvida. Usava um vestido longo e solto, cor-de-pssego, sapatilhas baixas e argolas douradas nas orelhas. Parecia uma garotinha de quinze anos. Mas j tinha vinte, faria vinte e um em outubro e era uma mulher casada. Sua mulher.
	Voc voltar comigo para casa, Vitria. J chega de tanta rebeldia.
	Nem pensar!  exclamou ela, endireitando os ombros. E, ao dar um ou dois passos para trs, o sol entrando pela janela atravessou o tecido fino do vestido, enfatizando aquilo que antes Zac no conseguira ver.
	Para quando  o beb?
	Dezembro. Vinte e quatro de dezembro.
	No Natal...  disse ele, os olhos brilhando.
	Exato.
Vitria se viu tomada por um forte desejo. O que estava havendo com ela? Como podia sentir aquilo por um homem que tanto a fizera sofrer? No podia se dar ao luxo de fraquejar, no naquele momento.
	Voc pode no ter conscincia disso, mas seu problema  resultado dos traumas que teve na infncia. No consegue confiar em mim. O medo da rejeio  mais forte.
	Medo de rejeio? Como assim?  Zac s podia estar brincando! Como ele se atrevia a torcer tudo a seu modo, e culp-la?
	Voc foi negligenciada quando criana, da pior forma possvel. E agora acha que ficar vulnervel se fizer o que seu corao est pedindo. No  isso?
	No, no . Esqueceu que algumas semanas antes de nosso casamento voc mesmo instalou Gina Rossellini no seu prprio apartamento? E que, alm disso, voc e minha me conspiraram contra mim nas minhas costas, firmando esse acordo?
	Que tolice! Ningum conspirou nada. Acho que voc est com mania de perseguio.
	Como pode dizer isso? Duas coisas importantes como essas acontecendo e voc no me disse uma palavra a respeito? Estvamos noivos, prestes a nos casar, e ainda assim voc escondeu tudo de mim. E por que faria isso, a no ser que tivesse motivos escusos?
	Eu quis poup-la. No pretendia que se preocupasse com assuntos to banais.
Vitria teria dado boas risadas se no estivesse to furiosa.
	No acredito. Mas, mesmo que isso fosse verdade, eu teria motivos suficientes para pedir o divrcio. Quero um marido que me veja como mulher e no como um acessrio decorativo que carrega pelo brao. Quero partilhar tudo com o homem que amar: decises, preocupaes, alegrias e tristezas. No me satisfaz ser apenas amada. Tambm quero me sentir necessria.
	E acha que no preciso de voc?
	Talvez como uma perfeita anfitri, ou reprodutora... Eu seria perfeita para seus propsitos. Mas voc perguntou se acho que precisa de mim... Creio que no. Voc  auto-suficiente.
Havia uma expresso sombria no rosto dele que h alguns dias a teria intimidado. No entanto, desde que sentira o beb se mexer, algo nela mudara radicalmente. Seria me em breve, e aquela criana dependeria totalmente dela. A fora do amor dizia-lhe para no permitir que seu filho crescesse do mesmo modo que ela crescera.
O mundo de Zac era igual ao dos pais de Vitria. Fora tola em pensar o contrrio. No queria que aquela criana achasse que o dinheiro podia comprar tudo, que amantes e romances so um estilo de vida, que babs, motoristas e criados teriam mais tempo para ouvi-la do que os prprios pais.
	Acha que posso ficar parado, assistindo voc arruinar a vida de trs pessoas? Voc  minha esposa, e a criana que espera tambm  minha. Pretendo cri-la da melhor maneira possvel.
	No pode me obrigar a continuar casada com voc, nem a aceitar seus favores. Tenho algum dinheiro, que recebi como herana de minha av, e ser suficiente at o beb completar um ano, ou at eu poder coloc-lo numa creche enquanto trabalho.
	S por cima do meu' cadver! No quero meu filho andando de mo em mo, sendo criado por desconhecidos. Juro que, se fizer o que diz, lutarei em todos os tribunais pela custdia da criana.
	Tambm lutarei.
	Sente-se  disse ele aps um longo momento em silncio.  Essa discusso no deve estar fazendo bem algum a voc ou ao beb.
	No. Prefiro ficar em p.
Vitria no queria ser taxada de fraca. Os ltimos meses aps o casamento lhe ensinaram que podia muito bem se manter em p dignamente. Mas a verdade era que desejava muito ser capaz de apoiar-se em algum. No em algum, corri-giu-se, mas em Zac. Porm, preferia morrer a ter de admitir isso, principalmente aps a ameaa que ele fizera a respeito da custdia.
	No estou pedindo. Estou mandando. Sen-te-se!  esbravejou ele.
	No h necessidade de me sentar  protestou ela. Mas suas pernas trmulas contavam uma histria diferente. Aps um olhar a seu rosto sombrio, sentou-se.  Por favor, v embora. Quero ficar sozinha.
	S quando eu estiver pronto. Ainda h assuntos a tratar.
	Voc no me assusta.
	Assustar voc?balbuciou ele, incredulamente.
Zac parecia mortalmente ofendido, como se ela o
tivesse acusado de estar cometendo alguma atrocidade. E Vitria sentiu satisfao em t-lo atingido.
	Isso mesmo. Como voc chamaria entrar na minha casa para me desafiar desta maneira?
	No vim aqui desafi-la  disse ele com profunda dignidade. Vim para falar sobre nosso filho.
	J dissemos tudo o que havia para ser dito  retrucou ela.
	Ah, no. Ainda nem comeamos. Pode acreditar. Ningum tira o que  meu, nem mesmo voc.
Vitria ficou petrificada, sem conseguir dizer uma palavra, enquanto ele se afastava com o rosto transfigurado. Ouviu a porta da frente bater e, como se tivesse sado de um transe, correu para alcan-lo, segurando a maaneta com dedos trmulos antes de cair sobre o carpete fofo, sentindo as foras lhe faltarem.
No saberia dizer quanto tempo ficou ali sentada, tremendo e assustada, at que conseguiu se recuperar e levantar. Foi para a cozinha e preparou um bule de caf bem forte. Tomou um gole.
Conseguiu ligar com voz firme e calma para a sra. Bretton, avisando que se atrasaria naquela manh. Aps tirar os sapatos, sentou-se na cozinha e, de olhos fechados, segurou a caneca com fora, pensando em tudo o que tinha acontecido.
Foi quando a campainha tocou.
Quem poderia ser? Vitria foi atender. Provavelmente era o entregador de gs, ou o funcionrio da companhia de eletricidade, querendo ler o relgio de luz.
	Sim?
No era nenhum dos dois. Na verdade, o que viu pelo olho mgico foi o mais enorme buque de rosas vermelhas e lilases, quase uma rplica do buque de casamento. Seu corao quase parou.
	Tory?  A voz de Zac estava calma e doce, completamente diferente de quanto saiu dali, minutos antes.  Ainda no lhe disse quanto estou feliz pelo beb, apesar... apesar de tudo.
A hesitao fez a diferena. Zac jamais hesitava diante de coisa alguma. E isso s a fez ver que ele estava realmente to encantado com o beb quanto ela. Resolveu abrir a porta.
	Oi novamente.
Zac parecia to doce quanto soava e, apesar de decidida a mant-lo a distncia, Vitria capitulou. Simplesmente no conseguiu resistir. Sorriu, olhando para as flores.
	So para mim?
	Sim, so para voc. Esqueci de dizer quanto est bonita... radiante, na verdade. A maternidade lhe fez muito bem.
	Bonita?  Vitria ergueu a cabea, surpresa e em pnico. Zac no pensava que a conseguiria de volta com elogios e presentes, pensava?
	Isso mesmo, bonita. E, falando de maternidade, de paternidade, voc deve entender que existem decises a tomar e que tenho direito de participar delas. Precisamos acertar algum tipo de acordo.
Ele estava calmo e sensato demais, Vitria concluiu, cheia de suspeita. "Acordo" era uma palavra que no constava do dicionrio dele. No entanto...
Ela o fitou, confusa. No podia deixar que a cena anterior se repetisse. Afinal, Zac voltara em misso de paz, e Vitria no era uma pessoa vingativa. Acima de tudo, ainda o amava. Mesmo aps ter sido trada.
Jamais conseguiria viver com Zac novamente, mesmo que Gina desaparecesse da vida dele. Mas, nem que fosse apenas para ter a conscincia tranquila, seria melhor se entender com o marido. A criana sairia ganhando se os pais mantivessem um relacionamento amistoso.
	Entre  disse, aproximando-se e aceitando o buque.  Posso lhe dar alguns minutos.
	Obrigado.
	Aceita uma xcara de caf? Acabei de fazer.
	Seria timo, obrigado.
	Sente-se.
Ela indicou uma poltrona antes de ir para a cozinha com as flores nos braos. Quando se viu sozinha, encostou-se no balco e rezou para no se descontrolar.
Tinha que manter a calma e se comportar como uma futura me, disse a si mesmo enquanto abria as portas dos armrios  procura de um vaso. Finalmente, pegou uma jarra, colocou gua e depositou o buque, sem tirar o papel celofane que o envolvia.
Ao voltar-se para pegar a cafeteira, o peso das flores fez com que a jarra virasse. O rudo que do vidro ao cair ao cho da cozinha quase a matou de susto, e trouxe Zac correndo feito um raio. Viu Vitria em p, cercada de gua e cacos de vidro.
	No se mexa!  Deu dois passos, os sapatos amassando o vidro, e pegou-a no colo antes que
ela pudesse dizer uma palavra. Levou-a de volta  sala.  Por que nunca usa sapatos, Tory?  perguntou com impacincia.
Seu hbito de andar descala era motivo de discusso quando namoravam.
	Porque no gosto.
Zac estava sem palet, e Vitria pde sentir o perfume de seu corpo. No era justo ele ser to atraente, sensual, msculo...
	Talvez por isso seus ps sejam to perfeitos...
Mas Zac no olhou para os ps de Vitria. Seus olhos pareciam colados na maciez dos lbios dela. At que se aproximou ainda mais, fazendo-a desej-lo perdidamente.
Vitria fechou os olhos ao sentir os lbios de Zac nos seus. Mas ento, quando o beijo terminou, pouco aps ter comeado, abriu-os novamente, parecendo surpresa. O que houvera?, perguntou a si mesma, confusa.
	Voc no se machucou por um milagre  disse ele ao coloc-la de p.  Agora, fique aqui enquanto limpo o cho da cozinha. Onde voc guarda a p e a vassoura?
	Na lavanderia...  disse ela, ainda trmula. Como num sonho, viu Zac pegar os objetos e varrer todos os cacos de vidro, colocando-os em seguida num saco de papel, junto ao lixo.
	Obrigada  disse ela, sorrindo.
	Voc tem um balde, ou algo parecido, para pr as flores? Pode coloc-las em outro vaso mais tarde, quando tiver tempo.
Homens msculos como Zac no deviam fazer tarefas domsticas, pensou Vitria, contrariando todas as feministas do mundo. Mas o toque de domesticidade enfatizava ainda mais o seu charme, tornando-o perturbadoramente perigoso.
	Ah, sim, um balde. Claro.
Vitria tentou se controlar enquanto abria, no armrio, a porta em que ficava o material de limpeza. Finalmente encontrou um balde, ainda sem uso.
Colocou-o dentro da pia e encheu com gua. Quando estava prestes a p-lo no cho, Zac gritou, assustando-a pela segunda vez naquela manh:
	Pare!
	O que foi?  Todos os vestgios do desejo desapareceram quando Vitria olhou para o rosto irado de Zac.  O que fiz de errado dessa vez? Ele tirou uma mecha de cabelo da frente dos olhos, com ar irritado.
	Pretendia colocar esse balde no cho?
	Sim. Qual  o problema?  respondeu ela, o corao em disparada.
	Voc est grvida! Grvidas no fazem coisas como correr maratonas ou saltar de pra-quedas, tampouco levantam peso. No v que isso pode lhe fazer mal? Por que no frequenta um desses cursos para mulheres que esperam filhos?
	Pretendo frequentar, mas s no final de setembro. E no se preocupe comigo, sei me cuidar
	retrucou ela, furiosa.
Como Zac podia insinuar que estava colocando a vida do beb em perigo?
	No tenho tanta certeza disso...
	Pois saiba que eu estava muito bem antes da sua chegada!  Ela estava brava demais para pensar em ser educada.  E voc que me deixa nervosa!
Logo se arrependeu do que disse. Mas era tarde. Zac a fitou com os olhos estreitados.
	E mesmo? Deixo voc nervosa, Tory?  Sorriu, satisfeito, e Vitria teve vontade de esmurr-lo.
	Mas no do jeito como voc est pensando 	corrigiu ela, afastando-se.
Zac porm a pegou pelo brao e a impediu de ir muito longe.
	De que jeito, ento?  indagou com voz sedutora.
	Pare com isso. Estamos separados, e essa discusso no me faz bem, nem ao beb.
	No quero discutir com voc, Tory.  Zac estava muito perto, e seu toque, seu cheiro faziam o sangue feminino ferver.  Quero algo diferente...
	Quer?  Ela ergueu os olhos, embriagada por aquela proximidade torturante.
	Quero despi-la lentamente, at que esteja nua diante de mim, o corpo implorando por meu toque...
	Por favor, no faa isso...
Vitria lutava contra as imagens sensuais que lhe vinham  mente. Aquele era o Zac manipulador, o mais perigoso de todos.
	Quero explorar sua boca, me deliciar com ela, com voc  continuou ele, como se no a tivesse ouvido.  Depois, meus lbios vo implorar por cada parte de seu corpo, todas elas. Aqui... 	tocou-a na garganta,  aqui...  um dedo atrevido deslizou por entre seus seios  ...e aqui.
	No me toque!  Ela segurou-lhe a mo.
	Por que no? Porque est morrendo de desejo?  perguntou ele cruelmente, a voz surpreendentemente terna.
	Eu no posso.  Vitria o empurrou, num gesto intil.
Zac, percebendo o tom desesperado, interrompeu as carcias.
	Posso esperar, Tory. Tenho todo o tempo do mundo. Voc  minha esposa e est esperando um filho meu. No pode me evitar a vida inteira. Ambos sabemos disso.  Passou por ela, pegou o balde e esvaziou-o at a metade antes de colocar as flores.
	Essa criana ter o sobrenome Harding.  Sua voz estava sem emoo quando ele tornou a fit-la.
	E, quando uniu seu corpo ao meu, como minha esposa, voc tambm se tornou uma Harding.  minha... inteiramente... assim como tambm sou seu. Vitria o fitou, incrdula.
	Como pode dizer isso? E quanto a Gina?
	Gina  da famlia, uma grande amiga, apenas isso. Mas, claro, voc no acredita. Mas no vou insistir. Quando estiver pronta para me ouvir, conversaremos. At l, acredite no que bem entender.
	Ento devo pensar que voc  um santo, no ?  perguntou ela, irritada.  No queira me fazer de tola.
	Eu nunca disse que era santo  respondeu ele, voltando para a sala de estar.  Mas isso  ridculo. Essa conversa no nos levar a nada. Sua mente continua fechada. Mas, deixando de lado os sentimentos, creio que devemos tentar nos entender, pelo bem de nosso filho. Concorda? Ou prefere continuar com uma guerra sem vencedores?  Zac foi pegar o palet que havia deixado na sala e retornou  cozinha. Parou  porta e a fitou.  O que me diz? Guerra ou paz?
Ela deu de ombros.
	No quero brigar. Mas talvez...
	No existe "talvez". Conheo-a bem, e tenho certeza de que no pretende privar este beb do que  dele por direito.
	Isso  chantagem emocional.
	Tambm, mas  a mais pura verdade. J percebi que voc no reconheceria isso. No entanto  Zac ergueu a mo, impedindo-a de interromp-lo , no vou insistir.
	Ah, agradeo  disse ela com sarcasmo.
Zac teve a audcia de sorrir.
	Outra coisa: no quero que fique aqui sozinha, nem que continue trabalhando.  desnecessrio, e pode prejudicar o beb. Acho que no preciso dizer que prefiro que no tenha mais contato com William Howard.
	Mais alguma coisa?
	Pelo visto, no pretende fazer nada do que pedi.
	Exatamente.
	Muito bem. Sugiro ento que nos encontremos regularmente, talvez algumas vezes por semana, para almoar ou jantar. Assim est bem para voc?
	O qu?  Vitria detestava quando ele tentava manipul-la.  Ainda no concordei com nenhuma destas coisas.
	Tambm quero que me prometa que, se tiver algum problema,  para mim que ir telefonar.
Nada daquilo deveria estar acontecendo, pensou ela. Zac jamais demonstrou qualquer remorso pelo que fizera, e, mesmo se a histria que contara sobre Gina fosse verdadeira, nunca dissera uma s palavra sobre o apartamento que comprara para a ex-amante, nem sobre o acordo lucrativo que fizera com Carol. Nem sequer a consultara.
Aquele casamento estava destinado a fracassar, mas ela, cega, no percebera que Zac no queria uma esposa, queria um brinquedo. Pousou a mo sobre o ventre, inconscientemente. Havia uma criana envolvida naquela histria.
	No pretendo voltar para voc, Zac.
	Estou falando de jantar uma vez ou outra, no de dormir juntos. Quero acompanhar sua gravidez e o desenvolvimento do meu filho, apenas isso.
Vitria estava certa em insistir na separao e no divrcio. Abaixou as longas pestanas para disfarar a prpria expresso. Zac era um homem intimidante, frio e distante. Algumas vezes se perguntava como havia se deixado iludir por aquele homem. Mas ainda o amava e no podia evitar isso.
Ele falava sobre compromisso, mas, na essncia, queria continuar a fazer o que sempre fizera, sem nada alterar no seu estilo de vida. Uma esposa lhe seria menos importante do que as pessoas com quem negociava.
	Tory, no estou dizendo que no cometo erros.
Eu queria apenas proteg-la do lado negro da vida.
Estaria ele dizendo que seu relacionamento com Gina fazia parte do lado negro da vida?
	Ah, ?
	. E das inevitveis frustraes do mundo dos negcios. Voc era to jovem e inexperiente... No queria que se desiludisse. Portanto, tomei a deciso que achei melhor.
	No sou nenhuma criana. Na verdade, tive uma infncia bem curta, graas a meus pais. Eles no suportavam bebs, e bem depressa aprendi a me comportar como adulta. No quero que isso acontea com meu filho.
	E acha que sou como seus pais? Ou melhor, como seu pai?
	Sim. No. Ah, j no tenho certeza de mais nada, exceto...
	Exceto? Vamos, Tory, fale!
	Exceto que esse beb  a primeira pessoa que realmente precisa de mim, que no poder viver sem mim. Serei tudo para ele e ele ser tudo para mim.  sangue do meu sangue.
	Do meu tambm, Tory.
Embora fosse difcil aceitar, ele tinha razo.
	Eu sei.
	Manterei contato  disse Zac antes de abrir a porta e sair.
Vitria continuou onde estava, absorta, at que o beb se moveu dentro de seu ventre e a fez voltar ao presente.
	O que foi, meu anjo? No estou lhe dando ateno?  sussurrou ela, acariciando a barriga.
 Esse seu pai... sempre ditando as regras. Acabou indo embora sem tomar o caf.
Foi para a sala e sentou-se. Suspirou profundamente. Nunca antes se sentira to confusa e dividida. Amava e odiava Zac ao mesmo tempo. Em certos momentos, desejava que ele participasse da vida do filho; em seguida, preferia estar do outro lado do globo terrestre e nunca mais v-lo.
Zac, Zac...
Vitria s percebeu que estava chorando quando uma lgrima tocou-lhe a mo. Que fazer para entend-lo? Num minuto, parecia frio e distante. No outro, chegava com flores e um sorriso capaz de conseguir tirar tudo o que desejasse dela.
Mas daquela vez no era somente o seu futuro que estava em jogo. Havia algum mais importante do que ela e Zac a considerar.
Queria o calor e a segurana de um lar para seu filho, e, se isso significasse que ele viveria com um dos pais, visitando o outro com frequncia, ento assim seria.

CAPTULO VI

Carol ficou ainda mais zangada do que Vitria havia imaginado ao receber a notcia.
	Fez isso s para me provocar, no foi?
Ela tremia tanto que derrubou vinho na toalha
de linho branco. Vitria, propositadamente, escolhera um dos restaurantes mais elegantes de Londres. Sabia que a me pensaria duas vezes antes de fazer um escndalo.
	Oua, eu...
	 bem tpico de voc. Recorre a esse tipo de coisa s para me aborrecer. Isso no lhe trar benefcio algum.
	Que absurdo. Vitria manteve a calma. Seria a nica maneira de saiif intacta daquele encontro desastroso.  Eu disse apenas que estou grvida!
	E o que Zac pensa disso? Ele  o pai, suponho?
	Claro que , e est felicssimo.  Vitria sentiu o peito se apertar, mas isso sempre acontecia quando ficava perto da me.
	Ento, voltou para ele...  Carol falou, como se a reconciliao fosse o perdo para o pecado da filha. E relaxou visivelmente.
	No, no voltei. Pretendo ter o beb, e cri-lo, sozinha. O divrcio vai prosseguir como planejado.
	Voc endoideceu, garota? O homem  um Har-ding; isso nada significa para voc? E rico e poderoso; com ele, voc jamais passar necessidade.
	No quero falar nisso, mame.
	 mesmo?  Carol se calou assim que o primeiro prato, salada de pato defumado, a especialidade da casa, foi servido.
A mesma dama elegante de sempre, sofisticada e bem criada, pensou Vitria ao ver Carol inclinar a cabea levemente em agradecimento ao garom. Ser que no cansava de representar? Talvez no fosse fingimento. Talvez a mscara fria e insensvel fosse o que restara da mulher de carne e osso que ela foi um dia.
	Agora entendo por que andou se escondendo nessas ltimas semanas  disse Carol, olhando para a filha.  Suponho que estivesse constrangida.
Vitria respirou fundo, pensando no que tinha a dizer.
	Eu no me escondi. Estava trabalhando.
	Trabalhando?
	Numa floricultura.
O silncio foi mais significativo do que qualquer demonstrao de furor. E continuou enquanto comeram a truta com molho de cogumelo, a torta de limo, e at Vitria pagar a conta e as duas sarem do Chaucer's.
	Para quando...  perguntou Carol, apontando desdenhosamente para a barriga de Vitria e procurando por um txi.
	Para quando  o beb, voc quer saber? Nascer no final de dezembro.
	Lamento, mas pretendo passar o Natal nas Bahamas.  Carol disse aquilo para deixar claro que estaria fora quando o beb nascesse, fosse quando fosse. Na certa, continuaria viajando o resto da vida do neto.
	Verdade? Que maravilha! Tenho certeza de que vai se divertir muito. Pretende ficar at o reveillon?
	Sim...  Carol levantou a pequena mo, autoritariamente, e um txi parou ao lado delas.  Posso lhe dar uma carona?
	No, obrigada. Preciso fazer compras.
Ela concordou com um simples aceno de cabea e, aps oferecer o rosto perfumado para a filha beijar, entrou no veculo sem olhar para trs.
Vitria continuou na calada, observando o carro se afastar. Por apenas um momento, a angstia que sempre estivera com ela na infncia voltou com toda a fora, fazendo com que se sentisse pequena, cada vez menor, at desaparecer totalmente. Mal amada e sem amor. A sensao era terrvel e devastadora.   )
	Ento, como foi?
A voz profunda e mscula a fez voltar-se to rpido que quase perdeu o equilbrio.
	Zac! O que est fazendo aqui?
	A tarde est linda, e, como eu nada tinha a fazer, sa para dar uma volta e fazer compras  disse ele alegremente, pegando-a pelo brao e im-pelindo-a a caminhar.
Vitria parou e voltou-se para fit-lo. Zac Har-ding sempre tinha muito o que fazer. Na verdade, conduzia a prpria vida com preciso militar. Passear, bem como fazer compras, no combinava com seu estilo agitado e atarefado.
	Veio at aqui porque achou que eu ficaria arrasada aps o encontro com minha me, no foi?  Vitria nem perdeu tempo perguntando como Zac havia descoberto que elas almoariam no Chaucer's.
	Esta  uma hiptese. O importante  que temos o resto da tarde, e a noite, para aproveitar. O que gostaria de fazer? Sou inteiramente seu.
O n que formou-se na garganta de Vitria, o aperto que sentiu no peito a impediram de dizer alguma coisa. No sabia explicar como se sentia. Zac havia pensado nela. Sabia do encontro com Carol, de como isso iria afet-la, e se preocupara. Ergueu os olhos comovidos para ele.
	Ei, vamos l, Tory, sabe como  sua me  prosseguiu Zac, julgando-a comovida por causa da me.
O que era perfeitamente adequado nas circunstncias, pensou ela enquanto Zac a abraava por um momento, antes de comear a caminhar. Mas precisava ter em mente que era com o marido que estava lidando. Ele era como um camaleo, o que explicava sua fora no mundo dos negcios. Sua formidvel inteligncia, seu discernimento, tornavam-no um perigoso adversrio. E era exa-tamente assim que devia encar-lo, ao menos at assinar o divrcio.
	Meu barco est ancorado em Henley. Gostaria de passar a tarde no rio?
	No creio que seja uma boa ideia.
	Por que no? No gosto dessa multido nos rodeando. Parece que todo mundo resolveu sair de casa esta tarde.
Vitria nada disse. Estar entre a multido era mais seguro.
	Voc tem algum compromisso para mais tarde?  Havia uma mudana sutil em Zac.
Por um instante ela pensou em mentir, mas o problema  que gostaria de acompanh-lo. Tardes como aquela seriam raras, no futuro. No podia se dar ao luxo de recusar. Afinal, era esposa dele.
Estava confusa, infeliz e solitria. Em quatro meses seria me, e Zac pai, de um novo ser humano.
	Pretende se encontrar com algum?  insistiu ele.
	No.  E ela usava o outro vestido novo, aquele que Zac ainda no tinha visto e que escondia quanto havia engordado.
	Ento, est decidido  disse Zac, recuperando o bom humor.
Sim, pensou Vitria, resignada, enquanto olhava para o rosto alegre do marido. Quando Zac Harding dizia algo, era fato consumado.
A pequena cidade de Henley, com seus pubs e belas lojas do sculo quinze, mostrava-se alegre e colorida quando Zac estacionou o Jaguar prximo do local onde o barco estava ancorado.
Vitria fizera vrios cruzeiros em luxuosos transatlnticos, e adorara cada minuto. Mas sentia-se apreensiva enquanto Zac a conduzia  embarcao espaosa e confortvel. O magnetismo pessoal e a virilidade dele pareciam mil vezes mais intensos num ambiente to acanhado.
	Deseja beber algo. Tory?
	No, obrigada.
Vitria sentou-se, observando-o abrir a geladeira, revelando estar preparado para servir iguarias como salmo defumado e caviar.
	Imaginei que voc fosse querer passar algumas horas passeando pelo rio  disse ele, desmentindo o fato de ter planejado o passeio com antecedncia.  Sempre fico com fome quando nado.
	E com sede.  Vitria olhou para a garrafa de champanhe.  Espero que tenha se lembrado de trazer gua. Como deve saber, no posso tomar bebida alcolica at o beb nascer.
	Nem mesmo uma taa? Metade?
	Prefiro no correr riscos desnecessrios.
	Esse beb no sabe a sorte que tem...  Zac se aproximou para ternamente acariciar seu rosto.
	No h comeo de vida pior do que ser filho de pais separados.
	Mas ns somos casados. E bem casados.
	Bem casados? Isso no  verdade.
Droga! Como Vitria podia ser to bonita, suave e vulnervel, e ainda assim to teimosa?
	O que eu sinto no faz diferena para voc, Tory? No quero me divorciar.
	Suponho que no. Se continuar casado, voc ter tudo o que sempre desejou: uma esposa prestativa, um filho e herdeiro para carregar o ilustre nome dos Harding, um acordo lucrativo de negcios. E tambm ter...  Ela no conseguiu mencionar o nome de Gina.
	O acordo teria sido feito quer nos casssemos ou no. No era relevante. Jamais misturei negcios com prazer. Mas no a trouxe aqui para discutir.
	Lamento se no posso agir de acordo com os planos do grande Zac Harding.
	Se no estivesse grvida, juro que lhe daria umas palmadas.  o que voc merece.
	Nem em sonho!  Vitria no sabia por que estava agindo daquela maneira, mas no conseguia se controlar.
	O que sonho  outra histria.
Zac se transformou. O tom sensual, o brilho ardente em seus olhos revelavam que tipo de sonhos vinha tendo. O mesmo tipo que ela.
No estou interessada nessa espcie de conversa.
Mas era tarde demais. Zac beijou-a com paixo.
	Voc  linda, sabia?  sussurrou contra seus lbios.  E me deixa louco... Beije-me, Tory. Diga que me quer.
Deu-lhe beijos no rosto, olhos, nariz, pescoo at que ela desmanchou-se em seus braos.
Mas o que estava fazendo?, perguntou-se, afastando-se. Mas Zac no permitiu que fosse muito longe. Levou-a at o sof, tornando a beij-la.
	Quero voc, Tory. Tanto que chega a doer.
	No posso...
	Voc  minha.
O sol batendo nas cortinas deixava o ambiente levemente rosado. Vitria empurrou-o, fazendo com que perdesse o equilbrio e casse perto do sof. Minha. Ele continuava pensando em control-la, possu-la.
Vitria ficou em p, arrumando o vestido. No entanto, preocupou-se ao notar que ele no se movia. Inclinou-se. Para seu desespero, havia sangue escorrendo da testa masculina.
	Zac! Voc est bem?  No instante seguinte, ele abriu os olhos.  Oh, meu Deus, o que foi que eu fiz?
	O que houve?  perguntou ele, meio zonzo.
	Voc deve ter batido a cabea. Oh, desculpe.
Ele tentou sentar-se.
	Caramba! Da prxima vez que quiser dizer no,  s falar!
	No seria melhor chamar um mdico?
	No, obrigado. Estou bem.
	Deixe-me ajud-lo.
O modo como ele fechou QS olhos fez Vitria notar que tentava ser paciente.
	Foi apenas uma leve batida na cabea. Posso
me levantar sozinho.
No entanto, ao tentar erguer-se, Zac ficou plido, e ela achou melhor segur-lo. Conduziu-o ao convs, para que respirasse um pouco de ar fresco.
	Quer que lhe traga algo para beber?
	Sim, por favor, mas nada de refrigerante. Aceitarei uma taa daquele excelente champanhe. Dizem que no h melhor remdio.
	No encostei um s dedo em voc  protestou Vitria.
	No sei se isso serve de consolo.
Quando Zac abriu a garrafa da bebida, ela aceitou um gole. Naquele momento, precisava de algo mais forte do que suco de laranja. V-lo cado ao cho, inerte, a desesperou.
Apesar de seus protestos, Zac ligou o motor do barco e zarparam. Vitria ficou tensa a maior parte da tarde, mas relaxou e divertiu-se assim que o calor do vero e a conversa agradvel comearam a exercer sua magia.
Ele no tentou toc-la de novo. E, apesar de ser exatamente o que ela pretendia, no pde evitar uma ponta de decepo.
Comeava a anoitecer quando retornaram  marina. Vitria gostou do passeio, mais do que devia. Notou os olhos dele brilharem durante o pequeno e formal discurso que fez de agradecimento pela tarde agradvel.
	O prazer foi todo meu.
	Sinto muito sobre o que aconteceu.
	Esquea!  Ele se aproximou tanto que Vitria conseguiu sentir o perfume suave da colnia. Em seguida beijou-a levemente nos lbios.  Gosto de estar com voc, Tory. Sempre gostei.
Mas ele tambm gostava de estar com Gina. Alguns homens no se contentavam com uma s mulher, como seu pai. Linda Ward fora sua amante durante anos, e provavelmente houvera outras. Mas Vitria no era como a me. Jamais aceitaria outra mulher na vida do marido.
	Voc tambm gosta de ficar com outras pessoas.
No era exatamente o que ela queria dizer. Continuar com as acusaes aps a tarde agradvel que passaram juntos seria ruim.
	No mais... Principalmente, depois que a conheci. Sei que no acredita, mas estou certo de que algum dia ir acreditar. Posso esperar.
	No sou tola.  As boas intenes de Vitria foram por gua abaixo.  No sei se devemos continuar com esses encontros. No faz bem a nenhum de ns.
	Por que no? Teme gostar mais do que devia da minha companhia?
Zac acertara, mas ela dissimulou com frieza ao protestar:
	No diga bobagens!
Tinham alcanado o carro e Vitria recostou-se  porta. Zac a segurou pelos ombros, fitando-a dentro dos olhos.
	No se esquea de que concordamos em nos ver. Fiz vrias concesses, e espero que voc faa o mesmo.
	No  justo...
	Justo? E o que seria justo para voc? Quando  que a vida foi justa? Acha justo ter sido gerada por pais que no gostavam de crianas? Ou minha me morrer quando eu ainda era criana? Ou acha justo ver meu pai se matar de tanto beber, por no conseguir superar a falta dela?
	Zac... Eu no sabia! Voc nunca falou sobre isso.
	H muito a meu respeito que voc desconhece, Vitria.
	Como... como foi que sua me morreu?  perguntou ela docemente.
Quando se conheceram, Zac mencionara que os pais haviam morrido, mas sem dar maiores detalhes. Ele e Vitria partilharam de muitos momentos bons juntos, indo a teatros, festas, jantares em restaurantes caros, mas, na verdade, nunca conversaram seriamente.
	Ao dar  luz a minha irm. Surgiram problemas, e ela entrou em trabalho de parto semanas antes do previsto.
	O que aconteceu?
	Agora no, Tory. Vamos deixar para outra hora.
Vitria entendeu. Zac no queria alarm-la.
	Prometo no me impressionar. Este beb ser saudvel.  Vitria passou a mo na barriga.  E no correrei risco algum.
	Minha me era linda, carinhosa e forte  disse ele.  Mas nunca foi saudvel. Aparentemente, os mdicos tinham alertado que seria perigoso ter outro filho. Mas mame era italiana, e sonhava em ter uma famlia numerosa. No sei se conseguiu convencer meu pai ou se foi um descuido, pelo qual pagou com a prpria vida. O beb nasceu prematuro e morreu. E, apesar da fortuna de papai, e dos melhores mdicos da Inglaterra, ela veio a falecer.
Vitria sentiu um profundo pesar.
	Oh, Zac...
	Papai ficou desesperado  continuou ele.  Comeou a beber... uma, duas garrafas de usque numa noite. O corpo humano no suporta esse tipo de abuso. Lembro-me de que no chorei em seu enterro. Creio que j tinha chorado tudo o que era capaz.
Vitria no pde suportar a imagem do pobre garotinho perdendo a me que adorava e vendo o pai se destruir, entrando num caminho sem volta, onde ningum poderia ajud-lo.
	E ento?
Ele deu de ombros, tentando manter a voz controlada.
	Aos dezessete anos, me tornei um jovem muito rico, algo que no recomendo a ningum. Continuava revoltado, ressentido, e me comportei mal durante algum tempo.
	Sinto muito.
	Mas graas a Deus pude contar com a ajuda de dois amigos. No tiveram medo de conversar comigo quando foi necessrio. Enfim, acabei tomando jeito. Os negcios de meu pai estavam sendo conduzidos por um bando diretores, disfarados de magos das finanas. Mas entre eles no havia um s homem de viso, um empreendedor. Incapazes de correr riscos ou se modernizar, perderam grande parte da fortuna de meu pai.
	Foi ento que voc assumiu a empresa e livrou-se da metade deles.
	Como sabe?

	Suposio, apenas. Aposto que se saiu maravilhos am ente.
	Sim. Aprendi a fazer amigos e a influenciar pessoas. E, com a "limpeza", pude comear com uma equipe que executava as tarefas  minha maneira.
Zac riu e abriu a porta do carro para que ela entrasse. Em seguida sentou-se atrs do volante.
Conversaram pouco no trajeto at Richmond, e Vitria se perguntou se Zac j havia se arrependido por ter falado sobre o passado.
J estava escuro quando chegaram ao apartamento. As ruas mostravam-se repletas de londrinos, aproveitando a noite quente de vero. O cu cheio de estrelas brilhantes, o perfume das flores frescas vindo dos jardins, despertavam o romantismo nas pessoas, pensou Vitria enquanto Zac a acompanhava at a porta. Ser que toda aquela conversa era apenas preparao para aquele momento? Ele esperava que o convidasse para entrar e passar a noite?
A ideia era mais eletrizante do que assustadora, e fez seu corao acelerar.
	Boa noite, Vitria  disse ele, os lbios roando nos dela.
	Boa noite...
A despedida fria continuava ecoando em seus ouvidos quando Zac se afastou e entrou no carro.
Lgrimas correram, surpreendendo-a. Antes da gravidez, ela dificilmente chorava, mas agora quase no conseguia parar. No sabia se estava assim emocionada por causa do beb, ou porque teria de contar apenas consigo mesma para cri-lo. Ou por Zac...
Mas, acima de tudo, pensou ao sair da banheira, chorava por si prpria. Porque continuava amando o marido.
Ao deslizar para baixo das cobertas, Vitria continuava pensando nos momentos que passaram juntos naquela tarde, nas palavras que disseram, nos gestos e atitudes.
O que ele estaria fazendo naquele momento? Passeando com Gina? Precisava parar de pensar neles. Um livro talvez fosse a soluo.
Leu por mais de uma hora, tentando se concentrar, mas no foi capaz de virar uma s pgina. Finalmente apagou a luz. Teve um sono agitado.
Ao acordar, na manh seguinte, percebeu que ainda tinha um longo caminho a percorrer antes de conseguir tirar Zac Harding da sua vida e de seu corao.

CAPTULO VII

Vitria e Zac se encontraram vrias vezes durante o ms de setembro. Outubro chegou, colorindo as rvores do pequeno parque onde ela costumava caminhar, todas as manhs, com tons de dourado, ocre, marrom e carmim.
Zac andava distante, apesar de gentil e preocupado. Mas que importncia tinha, se Vitria j no o atraa?, questionou-se ela certa manh, no final do ms, enquanto passeava pelo parque, sentindo o perfume dos crisntemos.
Zac a levara ao cinema na noite anterior, e a Vitria parecera que o local estava repleto de mulheres magras e elegante, verdadeiras modelos de capa de revista. Enquanto isso, ela, usando outro de seus vestidos novos, sentiu-se como se fosse o rei Momo.
Zac, como sempre, estava bonito e impecavelmente bem-vestido, atraindo olhares femininos. Para piorar a situao, ele no tentou beij-la quando a acompanhou at a porta de casa. Afastou-se apressado, como se estivesse grato pela noite ter chegado ao fim. E no disse quando tornariam a se ver.
Vitria entrou no apartamento pensando em tomar uma xcara de caf. Aquele relacionamento amistoso e sem graa fora ideia dele. Se quisesse d-lo por encerrado, ela no se oporia.
Saa-se perfeitamente sozinha. E, quando o beb nascesse, as coisas melhorariam. Teria seu filho para amar e criar, e poderia comear a fazer planos para o futuro.
Continuava falando com os prprios botes quando chegou  loja, meia hora depois. A sra. Bretton estava aflita.
	Ah, Vitria, ainda bem que chegou. No imagina o que houve. Nunca aconteceu, mas esqueci completamente de uma encomenda, um buque de noiva e uma caixa de botes de rosas para as lapelas dos padrinhos.  para uma das minhas vizinhas. A filha casa-se hoje. Ela me telefonou a noite passada para perguntar pela encomenda. Pode imaginar como me senti?
	E o que disse a ela, sra. Bretton?
	Me desculpei, e disse que entregaria tudo por volta das onze. Cheguei aqui s seis da manh e j terminei os botes. Comecei a fazer o buque, mas sabe como sou pssima com os arranjos... Voc poderia cuidar disso para mim? Quando terminar, irei fazer a entrega.
	Pode deixar.
s nove e vinte, o buque havia se transformado num arranjo adorvel, e s nove e vinte e um a sra. Bretton estava de sada para a casa da vizinha.
	Devo voltar antes das onze. Tudo bem?
	Tudo. No tenha pressa.  No era a primeira vez que Vitria tomava conta da loja.
	Obrigada, querida  respondeu a sra. Bretton, sorrindo.
Vitria no saberia dizer como aconteceu. Num minuto, ela subia na escada para pegar um vaso, e no seguinte estava no cho, em meio a plantas, flores, terra e gua.
O impacto da queda a deixou sem flego. Permaneceu deitada, em pnico. O que tinha feito?
Seu corpo inteiro doa, mas a dor que tinha nas costas e que corria at o ventre a petrificou. Rezou desesperadamente para que nada tivesse acontecido com o beb.
Continuou sem se mover, fazendo todo tipo de promessas at que ouviu a porta da loja abrir, passos de algum entrando e a voz de uma criana.
	Tem algum a?  chamou.  Pode me ajudar, por favor? Aqui, no fundo da loja.
A jovem me e o garotinho foram como anjos cados do cu. Enquanto a cliente telefonava para Zac, o menino ficou corajosamente ao lado de Vitria, se-gurando-lhe a mo e conversando como se fosse um adulto, no uma) criana de trs anos. Mostrou os arranhes que ganhou nos joelhos rechonchudos ao cair, dizendo que ela ficaria boa, assim como ele ficara.
Vitria conseguiu sentar-se, mas foi s isso. Toda vez que tentava se levantar, a dor nas costas a fazia desistir.
Como Zac conseguiu chegar em apenas dez minutos, ela no fazia ideia. Mas, ao ouvir a freada brusca do Jaguar, pensou que no ficaria surpresa se ouvisse a sirene do carro da polcia seguindo-o.
Em poucos segundos, estava ajoelhado a seu lado, com o rosto plido como o dela.
	Onde di, Tory? No tente se mexer, apenas me diga.
Vitria ficou grata por ele no dizer nem uma s vez "eu no avisei?" E o obstetra do hospital para onde a levou, que era amigo de Zac, permaneceu o tempo todo a seu lado, sempre gentil e atencioso.
Alm do olhar de surpresa do mdico enquanto ouvia as explicaes de Zac a respeito da queda, Ross Goodwin no pareceu estranhar o fato de a esposa grvida de seu amigo milionrio trabalhar numa pequena floricultura no corao de Richmond.
	Vrios msculos distendidos e uma boa dose de hematomas a faro sentir-se como se tivesse levado uma surra ao acordar, amanh  disse o mdico despreocupadamente, aps terminar o exame.  Sugiro repouso completo por alguns dias, e depois muito cuidado por uma ou duas semanas.
	E o beb? Pode ter sido atingido?
	O beb est bem.  Ross Goodwin era o oposto de Zac. Baixinho, rolio e calvo, mas com um sorriso doce e ternos olhos castanhos.  Eles so mais fortes do que imagina, sabia?  Apontou para a barriga de Vitria.  Mas chega de acrobacias. Lembre-se que no est to gil quanto antes.
	Obrigada, doutor.
	Eu cuidarei dela, Ross, no se preocupe.  Zac parecia emocionado e Vitria sentiu-se cheia de culpa ao olhar para seu rosto. Aquele filho tambm era dele.
Insistiu em lev-la para o carro numa cadeira de rodas, apesar dos protestos de Vitria. Colocou-a no banco de passageiros como se ela fosse uma pea de porcelana.
	Voc  quem vai acordar com dor nas costas  advertiu ela, tentando aliviar a tenso.  Sinto muito. Eu... no faria nada para machucar o beb.
	Acha que no sei? Voc precisava estar protegida, e falhei terrivelmente nesse ponto. Mas agora basta, Tory.
	A culpa no foi sua. Eu devia ter tido mais cuidado.
	Vou lev-la para casa.
A inflexo na voz de Zac a fez entender que ele no se referia ao apartamento em Richmond.
	Obrigada. Pelo menos, o apartamento  no trreo...
	Disse que vou lev-la para casa, Tory. Nossa casa.  Vitria virou a cabea para fit-lo. Era a nica parte do corpo que conseguia mover sem sentir dor. Antes que dissesse uma palavra, ele prosseguiu:  No discuta comigo. S o que estou pedindo  que fique na nossa casa at o nascimento do beb. Provavelmente no conseguir se mexer durante os prximos dias. E se tornar a cair e no conseguir chegar at o telefone? Ou se comear a se sentir mal?
	No pretendo transformar isso num hbito  disse ela com firmeza, tentando esconder a dor que sentiu ao ver que Zac preocupava-se apenas com a criana.  Mas faltam dois meses para o beb nascer. No posso ficar em sua casa todo esse tempo.
	Caso no saiba,  perfeitamente normal a esposa viver com o marido antes do nascimento do filho de ambos.
	Talvez, mas ns no somos um casal normal, somos?
	Depende daquilo que julgue normal. Cada um tem um conceito sobre a normalidade.
Vitria respirou fundo, tentando se acalmar.
	Prometo ser cuidadosa e no me exceder.
	Sei que ser, porque estarei de olho em voc. Agora, escolha: se continuar a bancar a difcil, iremos diretamente para casa. Se estiver preparada para agir como uma mulher sensata, podemos passar pelo seu apartamento para pegar suas coisas.
Quanta arrogncia! Todos os sentimentos de ternura e carinho que ela nutrira pelo marido durante as ltimas semanas se evaporaram, transformando-se em frustrao. Zac no confiava nela. Infelizmente, naquele momento, era ele quem dava as cartas.
	E ento?  A voz masculina soou com ar imperturbvel.
	Odeio voc.
	Pois eu a amo.
	Preciso pegar algumas coisas no apartamento.
Ele abriu o porta-luvas e entregou-lhe um bloco e uma caneta antes de sair do estacionamento do hospital.
	Faa uma lista do que ir precisar. Porque, quando chegarmos ao apartamento, voc no vai sair do carro.  melhor no abusar da sorte. Combinado?  Vitria continuou calada. Ele a olhou rpida e intensamente, repetindo:  Combinado?
	Sim. Mas quando chegarmos, quero telefonar para a sra. Bretton e explicar exatamente o que aconteceu. E dizer que voc vai levar a chave da loja para ela amanh. O bilhete que deixei no foi muito esclarecedor.
	A sra. Bretton no faz parte de minha lista de prioridades nesse momento. Voc  uma mulher grvida que acabou de sofrer uma queda bastante sria  disse ele ao entrar na avenida.
Aps pegarem as roupas e objetos pessoais no apartamento, incluindo a mala do beb, seguiram para Wimbledon. Vitria estava to tensa que o menor movimento a fazia gemer de dor.
Para tir-la do carro, Zac insistiu em carreg-la no colo.
	Desculpe, mas acho que estou muito pesada para voc.
	Bobagem.  Apesar de seus protestos, Zac s a baixou para coloc-la na cama do quarto principal.  No acha que um banho poderia ajud-la a relaxar?  perguntou ele, vendo-a recostar-se.  Ross sugeriu gua quente, para ajudar os analgsicos.
	Um banho?  A ideia de tomar um banho quente foi maravilhosa.  Ah, seria fantstico  respondeu ela.
Mas lembrou-se tarde demais que precisaria contar com a ajuda de Zac. Quando tentou voltar atrs, ele a fitou.
	Voc devia saber que no corre o menor perigo comigo. No pretendo atac-la, se  o que teme. Alm disso, j a vi despida, esqueceu?
A ideia de se ver nua diante daquele homem a constrangia. Havia uma grande diferena entre "antes" e "agora", pensou ela, desolada.
Fique aqui enquanto preparo seu banho.
Assim que Zac saiu, Vitria tentou colocar as pernas para fora da cama, mas sentiu muita dor. Pelo jeito, no conseguiria despir-se sozinha. Pensar nisso a deixou ainda mais apavorada. Mas, quando ele voltou, j tinha aceitado o fato e se conscientizado de que estava mais desamparada do que o beb.
	Bem, o banho est pronto. Agora, vamos tirar essa roupa. Bem devagar, certo?
	Podia primeiro pegar o meu robe, por favor?  pediu ela, enquanto Zac inclinava-se para ti-rar-lhe os sapatos.
Ele levou algum tempo para livr-la das roupas. Vitria descobriu que era impossvel levantar os braos, tornando a tarefa de tirar o vestido ainda mais difcil. De suti, calcinha e meia-cala, desejou que o cho se abrisse para poder desaparecer.
Quando ele deslizou a meia pelas pernas macias, o beb decidiu fazer-se notar. O movimento no lhe passou despercebido. Ela congelou, mas o beb no teve o mesmo pudor.
	Tory...  Zac ficou imvel, os olhos fixos no ventre feminino, enquanto a criana se movia, mostrando que estava satisfeita com a nova posio.
Ento, Zac a encarou. E o que ela viu nos olhos do marido a fez esquecer do constrangimento e do desconforto.
	Tem acontecido o tempo inteiro, ultimamente...
	Ele se move, sente...
Zac tinha lgrimas nos olhos, e a voz estrangulada pela emoo. Vitria no zombou daquele espanto. Tomou-lhe a mo e pousou-a sobre o ventre, para que ele sentisse o filho se mexendo.
	Acho que estou precisando daquele banho...
Ela conseguiu sorrir enquanto o via levant-la da
cama com a mesma expresso de embevecimento.
Zac passou o robe pelos seus ombros antes que Vitria desabotoasse o suti. Tinha o rosto completamente inexpressivo ao coloc-la na banheira perfumada, cheia de espuma. E igualmente inexpressivo quando voltou, cerca de vinte minutos depois, para ajud-la a sair, envolvendo-a numa toalha macia antes de carreg-la para o quarto.
Aquele era o quarto em que dormiriam juntos, pensou Vitria enquanto Zac cuidadosamente a colocava na cama forrada com lenis limpos e cheirosos.
	No quero tir-lo de sua cama  disse ela.  Posso muito bem dormir no quarto de hspedes.
	Fique tranquila. No durmo aqui.
Houve outro momento embaraoso quando ele a ajudou a colocar a camisola de seda branca. Mas, pelo menos, o banho ajudou a relaxar os msculos, e agora era mais fcil erguer os braos.
Vitria estava ciente dos olhos dele em seus seios fartos. Ento, viu-se deitada, com as cobertas puxadas at o queixo e as mos fechadas de modo tenso.
	Vou lhe trazer um lanche leve e depois voc tomar os analgsicos que Ross prescreveu  disse Zac, taxativo, como se estivesse acostumado a t-la ali todos os dias.  Que tal omelete e salada?
Vitria assentiu.
	Mas no quero atrapalhar o seu trabalho, ou a sua rotina.
	Vem se intrometendo em meu trabalho e me distraindo desde o momento em que coloquei os olhos em voc...  Ele abaixou-se e roou os lbios femininos. Em seguida intensificou o beijo, at que ela estivesse completamente envolvida pelas sensaes e no sentisse mais dor.  Momentos como este fazem tudo isso valer a pena.  Em seguida se levantou, olhando ternamente para o rosto corado.  Agora, fique deitada e deixe que o calor relaxe esses msculos doloridos. Eu j volto. Vou comer aqui com voc, se no se importar.
Ela sorriu.
Fique  vontade.
Zac sorriu, sem o menor trao de cinismo.
Depois do almoo, sugiro que durma a tarde inteira. Agora, deixe-me colocar o avental de chefe de cozinha  disse ele, e em seguida a deixou.

CAPTULO VIII

No primeiro dia de descanso forado de Vitria, Zac revelou-se um perfeito enfermeiro, preparando-lhe refeies leves e apetitosas, banhos quentes, lavando e secando seu cabelo e massageando-lhe as costas doloridas.
Era torturante a sensao de ter aquelas coxas musculosas roando as dela enquanto Zac sentava-se na cama para escovar-lhe os cabelos, espalhando aquele perfume delicioso. No entanto, alm do beijo que lhe deu no primeiro dia, ele no tornou a demonstrar nenhum interesse fsico ou romntico em relao  esposa.
Vitria sabia que Zac estava trabalhando em casa. O escritrio, no andar inferior, era equipado com mquinas de ltima gerao. Por diversas vezes ouvira pessoas chegando e saindo.
Mas, alm do telefonema que ele atendeu no quarto, o trabalho no a perturbava. Vitria repreendeu-se por ser to ingrata, mas naquela casa se sentia como um pssaro engaiolado.
Naquele dia, aps um delicioso caf da manh, tomou banho e se vestiu com extremo cuidado, movendo-se lentamente para no distender os msculos ainda frgeis, e se arriscou a descer antes que a diarista de Zac, a robusta sra. Watts, chegasse. Tinha escovado os cabelos at que lhe cassem pelos ombros como uma cascata dourada. Aplicou um leve batom nos lbios e uma dose discreta de seu perfume favorito. No entanto, ao descer a escada e seguir pelo corredor, sentia-se terrivelmente desajeitada e nervosa.
	Que diabos pensa estar fazendo?  disse Zac, atrs dela.
A resposta que Vitria havia preparado lhe fugiu. Ele se encontrava parado junto  porta do escritrio, usando um roupo azul-marinho curto, sem nada por baixo. Parecia haver acabado de sair do banho. Vitria lembrou-se de ter ouvido o telefone tocar enquanto se vestia. Percebia agora que devia tratar-se de negcios.
Os cabelos midos caam pela testa de Zac, dan-do-lhe uma aparncia fortemente sensual. Era difcil desviar os olhos do peito musculoso revelado pela abertura do roupo.
Ele estava incrivelmente atraente, e sua virilidade era mais ameaadora por causa do ar auto-confiante. Era um homem completamente  vontade e satisfeito com o prprio corpo.
	No aguento ficar nem mais um minuto dentro daquele quarto.  Ela sorriu, tentando acalm-lo.  Alm disso, o mdico disse para eu ficar de repouso somente alguns dias.
	Como est se sentindo?  perguntou ele, saindo para o corredor e se aproximando, espalhando o perfume da colnia que usava e fazendo-a tremer.
	Muito bem. Vejo que est trabalhando em casa...  comentou ela, olhando para a porta aberta.
	Quer dar uma olhadela? O trabalho tem funcionado bem daqui de casa.
Zac no esperou que Vitria respondesse. Con-duziu-a at o escritrio espaoso, que nada tinha de frio e impessoal. O carpete era vinho, no mesmo tom das cortinas de veludo, e uma estante repleta de livros cobria uma das paredes. Havia uma escrivaninha de canto com um computador, onde Zac trabalhava. No entanto, o que mais a atraiu foi a lareira de pedra e o tapete de pele de carneiro ao ps de duas confortveis poltronas.
	No lembrava que esse cmodo tinha lareira...
	Sempre esteve a, embora coberta  disse ele baixinho enquanto Vitria se aproximava do fogo para aquecer as mos.
	Adoro lareiras.
	Tory?
Assim que ela se virou, Zac a tomou nos braos, pegando-a totalmente de surpresa, o corpo firme e msculo e a boca faminta.
	Zac...
As mos femininas entraram pela abertura do robe, acariciando-lhe o peito musculoso antes de mo-ver-se at os ombros largos, sentindo a pele macia.
	Oh, Tory, Tory, no sabe quanto desejei isso  murmurou ele, acariciando-lhe os seios antes de tornar a beij-la.  Essa distncia est me deixando maluco. Voc est to bonita...
	Bonita? Estou enorme!
	Enorme e linda. Sua pele adquiriu um brilho diferente. E nem sei o que sinto quando a vejo to redonda, sabendo que carrega nosso filho. Quando o senti se mexer... Oh, Tory, foi um milagre.
Dessa vez, foi Vitria quem o puxou para junto de si e o beijou.
Passaram um longo tempo se tocando em frente  lareira, sobre o tapete macio, a sala escura por causa do dia nublado e chuvoso l fora. Exploraram um ao outro sem inibio, mas com muito prazer e sensualidade. O medo da rejeio desapareceu completamente. Zac a achava linda e desejvel. Podia ver isso em seus olhos e sentir na forma gentil e apaixonada como suas mos e boca a acariciavam.
Precisava muito ser amada. Os ltimos sete meses tinham sido repletos de angstia e dor. Aps os ltimos dias, no conseguia mais resistir ao marido. O futuro parecia distante, e ela queria aproveitar aquele momento. Afinal, era apenas humana. E adorava aquele homem.
	Zac, quero voc  sussurrou, emocionada.
Estavam ambos mortos de desejo, mas Vitria sentiu o profundo autocontrole do marido. E entendeu seus motivos.
	Faz tanto tempo... desejo-a muito, mas no quero machuc-la  disse ele, afastando-se um pouco.
	No vai me machucar, garanto.
Vitria o acariciou lentamente, sentindo-o estremecer sob seus dedos. As v-lo fechar os olhos e arquear as costas, deliciou-se com o poder que exercia sobre aquele homem forte e orgulhoso.
Guiou-o para dentro de seu corpo lentamente, e depois comeou a se mover de modo suave e sensual, fitando-o, sentindo-o. Ao menos daquela vez, precisava saber que ele era s seu.
Sentiu como se estivesse sendo transportada para um outro mundo. Aps chegar ao xtase, ani-nhou-se no peito largo, esgotada, e ele a envolveu num doce abrao.
	Zac?  perguntou ela algum tempo depois.
 Est acordado?
Ele se endireitou e puxou-a para junto de si.
	O que foi?
	Sua diarista, a sra. Watts...
	Hoje  o dia de folga dela.  O fogo crepitou, espalhando fagulhas no ar, enquanto Vitria se aninhava ainda mais nos braos do marido.  O dia  nosso, Tory. S nosso.
Tudo foi infinitamente doce. Ficaram horas deitados no tapete, o corpo de Zac envolvendo o dela com calor. Nada perturbou o pequeno idlio, nem o vento cortante, nem os pingos de chuva batendo fortemente contra a vidraa. Nem mesmo fax no canto da sala, nem a secretria eletrnica, que Zac deixou num volume baixo. As constantes chamadas soavam pouco mais que sussurros.
Amaram-se e riram diversas vezes, at que a manh se transformou em tarde e Zac pegou mais lenha para a lareira. Aps colocar o robe em Vitria, foi para a cozinha preparar um lanche, nu como viera ao mundo.
Outubro se transformou em novembro e no dia treze, aniversrio de Vitria, Zac lhe deu um conjunto de bracelete, colar e brincos de brilhante.
s cinco horas da tarde, escuro como meia-noite, as nuvens carregadas ainda encobriam o cu, onde uma lua tmida mostrou-se rapidamente antes de tornar a desaparecer.
Zac a conduziu devagar para o quarto. Vitria estava cansada e ele sabia disso. As sombras escuras sob os olhos femininos eram testemunhas de um dia de amor. Quando entraram no banheiro, Vitria puxou-o para dentro do chuveiro, beijando-o apaixonadamente enquanto ele a tomava nos braos.
Depois do banho, Zac a secara gentilmente, massageando-lhe os seios e o ventre com um creme perfumado. Em seguida, fez o mesmo nos braos e nas pernas, at chegar aos ps. Tornou a colo-car-lhe o robe e levou-a para a cama.
	Durma um pouco.  Puxou as cobertas enquanto falava.  Preciso tratar de alguns assuntos l embaixo, e em seguida jantaremos. Quer ir a algum restaurante ou prefere que eu pea algo? Comida chinesa, indiana? H uma excelente cantina italiana perto daqui. O que prefere?
	Comida chinesa.
	Chow mein? Chop suey?
	Voc escolhe.  Vitria se sentia exausta.
Zac abaixou-se e acariciou-lhe o rosto, beijando-a ternamente antes de cobri-la melhor.
	Durma, meu amor  disse antes de sair.
Vitria adormeceu. No entanto, algum tempo
depois, acordou de repente, assustada. Um aperto no peito a amargurava profundamente. Naquele momento, teve conscincia de que agia de maneira errada.
Sentou-se na cama, percebendo quanto fora ingnua. Havia quebrado todas as promessas que fez a si mesma. Amar no significava somente gostar de uma pessoa. Era preciso que a recproca fosse verdadeira.
De olhos fechados, gemendo por dentro, ela pensou que tambm precisava ser amada, com o tipo certo de amor. E o de Zac era errado.
Ele podia ser gentil, sedutor e carinhoso, mas aquele algo mais, que significava compromisso, cumplicidade, no fazia parte de sua personalidade. E ela sabia disso. No havia desculpa.
Por que concordara em fazer amor com aquele homem? Antes de se casar, tinha a desculpa de no saber com quem estava lidando. Mas, agora, descobrira que Zac tinha o poder de fazer qualquer mulher se sentir especial, nica. Era inevitvel, tratando-se de algum to belo e envolvente.
Vitria crescer numa famlia sem amor. O pai era incapaz de se envolver emocionalmente. Mas a me no se importava, e em parte tambm era responsvel pelo estranho casamento. Se Zac tivesse casado com algum como Carol, certamente teriam sido felizes. Mas, com ela, isso seria impossvel.
Talvez o que Vitria procurava nem sequer existisse. Talvez ningum fosse capaz de se manter fiel a uma nica pessoa o resto da vida.
A seu ver, o casamento era um sonho idealista e impraticvel. Ento, que fosse. No iria se submeter, e ao prprio filho,  tortura de viver num lar infeliz. Precisava ser forte e dizer claramente a Zac que aquele dia jamais deveria se repetir, apesar de ter sido to especial. E que nada havia mudado.
Vitria sabia que Zac no gostaria nem um pouco daquilo que iria dizer. No entanto, no estava preparada para ver seu olhar furioso, ao enfrent-lo durante o jantar.
	Como assim, querida? Como pode dizer que nada mudou?
	Acontece que, de fato, no mudou.  A deliciosa comida chinesa esfriava sobre a mesa, mas nenhum dos dois notava.  Amo voc. Sempre amei e provavelmente amarei at a morte. Mas no daria certo. Somos muito diferentes.
	Eu a amo e voc tambm me ama. Acabou de confessar isso. O que poderia ser mais importante?
	Vrias outras coisas.  Vitria lembrou-se dos prprios pais, que um dia tambm se amaram. No entanto, o sentimento no fora suficiente para mant-los unidos. Sem cumplicidade, companheirismo, nenhum amor resistia ao tempo e  rotina.  Coisas como Gina, por exemplo, e o fato de voc ter me usado para fechar o acordo com os advogados de minha me.
	Muito bem. Vamos esclarecer estes assuntos de uma vez por todas  disse ele secamente. Le-vantou-se e foi sentar-se junto a Vitria.  Quero que me oua, sem interromper.
Ela assentiu, sabendo que nada que Zac pudesse dizer ou fazer a convenceria.
	Pode comear.
	Admito que foi tolice ter ido ao quarto de Gina sem lhe dizer o que estava acontecendo. Mas eu no queria que nada arruinasse nossa noite de amor.
Vitria mudou de posio na cadeira, porm nada disse.
	Como voc sabe, eu e Gina tivemos um relacionamento. Mas estava tudo terminado quando nos conhecemos. Eu e ela nos tornamos amigos. Hoje sei que no devia ter me envolvido, porque aquele algo mgico nunca existiu entre ns. De qualquer modo, quando Gina precisou de mim, no pude lhe dar as costas.
Vitria no queria ouvir aquelas explicaes. De nada adiantaria.
	Ela havia perdido e emprego e no andava bem de sade, motivo pelo qual a ajudei com o apartamento quando minha tia telefonou. E justamente na manh de nosso casamento ela recebeu os resultados dos exames que havia feito algumas semanas atroas. Sua doena  grave e exige um longo tratamento. Sabendo das dificuldades que enfrentaria, e no tendo dinheiro nem amigos prximos, alm de mim, Gina entrou em pnico e tomou todo o vidro de calmante. Bem, o final da histria voc conhece.
	Ela o chamou e voc saiu correndo  disse Vitria lentamente.
	E faria de novo, se precisasse... S que dessa vez a levaria comigo. Tentei apenas poup-la de passar por uma experincia desagradvel, Tory, e...
	Voc sempre me tratou como se eu fosse um beb. Jamais dividiu um problema comigo. Durante o tempo em que namoramos, nunca conversou seriamente. E nunca estvamos sozinhos.
	Garanto que no foi por falta de vontade. Eu queria muito que ficssemos a ss. Mas voc era to jovem e inexperiente/.. Confesso que eu no acreditava que no mundo ainda existissem garotas assim, at que a conheci. Inmeras vezes tive vontade de abra-la, de beij-la, mas temia assust-la.
	Mas ns poderamos ter sado sozinhos para conversar, tentar nos conhecer melhor, sem precisar fazer amor.
	Sei disso, mas eu no confiava em mim mesmo. Achei que poderia seduzi-la. Foi isso, Tory.
	Zac...
	Mas tambm no podia mais esperar. Ento, apressei o casamento, lembra? Sabia que voc era a mulher de minha vida, a nica, e no queria correr o risco de perd-la.    
Vitria o fitou, sem saber no que acreditar.
	Voc no confiou em mim, no conversou comigo sobre o que sentia.  Era uma dolorosa afirmao, mas ele no negou, apenas assentiu, fitando-a nos olhos.
	Creio que no. Mal podia acreditar que tinha a sorte de ser dono de seu amor, de t-la como esposa. Fiz tantas coisas, vi outras acontecerem, e voc to pura, to inocente...
Vitria continuou sentada, calada, os olhos fixos no rosto bonito de Zac. Queria acreditar que era to simples quanto ele dizia, mas no conseguia. No estava acostumada a finais felizes.
Quanto ao acordo, saiba que foi ideia de sua me, e o lucro foi todo dela. Para mim, tanto fazia se fosse firmado ou no.
Ela assentiu, acreditando. Era bem tpico de Carol aproveitar qualquer chance de ganhar dinheiro. Mas tudo aquilo servira para lhe mostrar que no estava segura em relao a ele ou  habilidade masculina de amar para sempre. O problema no era Zac, era ela.
Suspirou profundamente. No fora feita para o casamento. Se ficasse com Zac, destruiria a ambos com seus medos e inseguranas.
	Tory?
	No acho que esteja mentindo... Mas no quero continuar casada.  Dessa vez, ela parecia mais determinada do que nunca.
	Algum motivo em particular?
	No devamos ter nos casado. Vejo isso agora e... lamento. No  por sua causa, como julguei que fosse. A cu lpa1  minha. Sou incapaz de confiar nas pessoas.
	E se eu lhe disser que posso mudar isso, que farei com que confie em mim?
	Ah, Zac...
	Est dizendo que  impossvel?  isso? Que no vai nos dar uma chance?
	Lamento muito, mas  melhor deixar como est.
	No posso aceitar.
	Bem, no quero afast-lo do beb. Podemos combinar visitas e tudo o mais... mas continuo querendo o divrcio. E lamento sobre hoje. Jamais deveria ter acontecido.
	Voc  minha mulher!
Pela primeira vez na vida, Zac no sabia o que fazer ou dizer. Eles se amavam, de verdade, mas isso no fazia a menor diferena.
	Creio que j posso voltar para o apartamento.
	Voc ficar aqui comigo at o beb nascer, Tory. Depois disso, encontraremos um lugar para voc e ele. Prometo.  Fitou-lhe o rosto plido.  O que houve hoje no se repetir.
	No posso continuar aqui aps o que houve.
	Podemos continuar amigos e criar nosso filho em paz.
	Mas no ser justo para com voc. Com o divrcio, as coisas entre ns ficariam mais definidas.
	Nunca houve divrcio m minha famlia, e no quero ser o primeiro a quebrar a tradio. Tenho a inteno de continuar casado para sempre. E no fui eu quem quebrou nossos votos.
	Se  o que quer... Eu entendo.
	Ento, estamos combinados.  Zac olhou para a boca trmula de Vitria, para sua pele clara e translcida, lembrando-se de como tinham se amado horas antes. Levantou-se e lentamente circundou a mesa, como se aquela conversa no tivesse sido to importante.  Vou esquentar o jantar. No levar cinco minutos.
	No estou com fome.
	Com fome ou sem fome, voc precisa comer. E em seguida descansar, e far tudo o que for preciso para evitar problemas. Vamos nos entender daqui para a frente, est bem?  Zac se inclinou e a olhou fixamente.  Tomarei conta de voc at que o beb nasa.
	Estou certa de que ficaria bem sozinha. Mas, se insiste, permanecerei aqui. Porm, s at o nascimento de nosso filho. Depois as coisas voltaro a ser como antes.
	Claro  respondeu Zac, dissimuladamente.
	Oua, no quero ser rude, mas acho que devamos colocar isso por escrito. Facilitaria nossas vidas.
	Acha mesmo?  Zac sorriu.  Pois ento, sua experincia com advogados  diferente da minha. Podemos nos entender perfeitamente sem envolver esses abutres. Concordo em fazer um acordo elaborado por uma terceira pessoa, estipulando os detalhes tcnicos necessrios. Mas apenas isso, Tory.
Vitria o fitou, incerta. Aquela proposta tinha a aparncia de uma caixa de presentes envolta num papel caro e luxuoso, mas que, quando aberta, se revelava vazia. Naquele momento, no entanto, no podia lutar contra Zac.

CAPTULO IX

A conversa que Vitria tivera com Zac i fizera entender que havia alguns assuntos mal resolvidos em sua vida. Os mesmos que ela varria para baixo do tapete desde a infncia. Agora, chegara a hora de enfrent-los.
Naquela manh, durante o desjejum, por pouco Vitria no caiu da cadeira ao ouvir Zac avisar com elaborada indiferena:
	Ah, antes que eu me esquea... Howard telefonou, para saber de voc. Vir tomar um caf co-nosco mais tarde. Achei que ficaria feliz em rev-lo.
	William vem aqui?  perguntou ela com surpresa.
	Por qu? Algum problema?
	No, claro que no. E que voc chegou a pensar que fssemos mais que bons amigos...
	Se eu de fato acreditasse nisso, no permitiria que ele se aproximasse de voc. Mas sei que, pelo menos de sua parte, esse relacionamento  apenas platnico.  Zac levantou as sobrancelhas sarcasticamente, ao v-la confusa.
	E no se importa que ele...  Vitria percebeu que seria tolice dizer o que pretendia e se calou.
	Ame voc?  terminou Zac calmamente.  O que acha? Que me importo?
	Como posso saber?
	Pessoas honradas como William so raridade hoje em dia...
	Estou surpresa por voc ter reconhecido isso.
	Aprendi a conhec-lo melhor aps termos tomado um drinque juntos. Acertamos nossas diferenas.
	Saiu para tomar um drinque com William?  Vitria no acreditou no que ouviu.
	Exatamente.  Zac parecia se divertir com a reao da esposa.
	Por que voc faria isso?
	Porque voc  minha mulher, e carrega meu filho. Posso conviver com a paixo de William desde que ele saiba que  comigo que voc vai ficar.
	E suponho que tenha deixado isso claro...  Vitria estava furiosa com tamanha arrogncia.
	Estou' certo que sim.
	Que timo. Ento, agora vocs so amigos?
	Oh, Tory, ainda tem muito o que aprender a respeito dos homens...
William apareceu mais tarde e foi conduzido pela sra. Watts at a sala de estar.
	Como est, Olhos-Azuis?
	Bem.  Ela sorriu largamente, embora sem conseguir engan-lo.  Zac mandou lembranas. Est trabalhando, como sempre...
	Na mensagem que me deixou na secretria eletrnica, entendi que ficaria aqui at o beb nascer.  isso mesmo? Ainda no se entendeu com seu marido?
	No. Sim. Ah...  Ela o fitou desoladamente.  Estou confusa. Zac talvez no estivesse me
traindo, mas...
William acomodou-se numa das poltronas e sorriu.
	Conte o que aconteceu. Talvez eu possa ajudar.
Vitria relatou o ltimo confronto com Zac, palavra por palavra, mas sem mencionar o dia anterior, quando fizeram amor. Foi um momento por demais precioso para ser partilhado.
	Voc no pode continuar nessa situao, Olhos-Azuis. Ambos se amam, e esse filho tambm  dele. Acho que os dois merecem que tome uma deciso.
	Eu sei.
Zac e William eram mais parecidos do que pensavam, concluiu Vitria ao ouvir o amigo repetir as palavras do marido.
	Voc precisa se livrar desses temores antes que eles arruinem sua felicidade. Est ciente disso, no est? Consulte um analista, faa o que for preciso, mas resolva esses traumas. Quando tiver encarado o pior, poder fazer um balano e decidir que atitude tomar no futuro. Mas a deciso precisa ser sua, de mais ningum.
Era um bom conselho. Ficaram conversando por mais algum tempo, at Zac chegar para o almoo... algo que ele no costumava fazer. Foram frios um com o outro, porm gentis, embora William tivesse sado logo em seguida.
	Promete me manter informado, seja o que for que decida?  pediu ele antes de entrar no txi.
Vitria observou o carro desaparecer, sentindo-se mais s do que nunca. 
Nos dias que se seguiram, ela lutou consigo mesma, contra os demnios da insegurana, do medo e da rejeio. O vigoroso apoio de algum que no se deixaria ignorar, movendo-se em seu ventre sem parar, e que dependia profundamente dela, era como uma slida rocha em que podia se apoiar.
Zac tambm ajudou, por mais estranho que pudesse parecer.
Naquela manh, aps terem feito amor, Vitria no sabia o que esperar. Mas, depois disso, ele se transformou num companheiro encantador, porm distante, que a tratava como uma boa amiga.
Na primeira manh de dezembro, Vitria olhou pela janela do quarto. O dia estava terrivelmente frio, o cu coberto de nuvens carregadas, antecipando uma semana de chuva e de neve. Mas ela se sentia aquecida, olhando para os passarinhos disputando um pedao de mamo que a sra. Watt havia colocado no jardim.
No dormira bem  noite, em parte por no conseguir uma posio confortvel na cama. E, em parte, por lembrar do que acontecera horas antes de ter ido se deitar.
Tudo comeara com o telefonema de sua me,  tarde, minutos antes de partir para as Bahamas, desejando-lhe um feliz Natal. Mas no mencionou o nascimento do beb prestes a acontecer at que Vitria tocasse no assunto.
 Ah, sim  disse Carol secamente.  Como vo as coisas? Suponho que agora j esteja mais adaptada  vida de casada. Recebi seu recado, dizendo que estava vivendo com Zac.
	Mas voc sabe que ser apenas por algum tempo  Vitria a fez lembrar.  Pretendo voltar para o apartamento assim que o beb nascer, e devo ficar l at que Zac encontre um lugar mais apropriado.
	Ah, ento ele j lhe contou?
	Contou o qu?
	Sobre o apartamento? Eu o aconselhei a contar, mas Zac tinha certeza de que voc no ficaria l se soubesse. Ele pode ser teimoso quando quer.
Por que ser que, toda vez que conversava com a me, Vitria tinha a impresso de caminhar sobre um campo minado? Seu corao disparou. Carol sabia de algo importante, e ela no.
	O qu, exatamente, est tentando dizer, mame?
Houve um minuto de silncio at Carol continuar:
	Bem, creio que agora no importa mais, j que ele vai comprar uma casa- para voc. O apartamento em Richmond foi ideia dele, se lhe interessa saber. Zac no a queria vivendo num lugar qualquer, ento combinou tudo com o proprietrio, com a condio de que voc no viesse a saber. Nunca suspeitou por que o aluguel era to barato?  perguntou ela.  Voc pagava apenas uma parte. Bem, agora preciso ir. Conversaremos me lhor quando eu voltar, em janeiro.
Vitria continuou segurando o fone por mais alguns minutos, sem acreditar no que ouvira. Zac ficara preocupado e tentara proteg-la da nica maneira possvel. Ah, Zac, Zac... Ela se sentiu mais confusa do que nunca.
Mais tarde, quando ele chegou em casa, Vitria usou o cansao como desculpa e foi se deitar sem contar sobre o telefonema de Carol. Precisava pensar no assunto, digeri-lo, antes de discutir.
Ento, quando estava deitada, com o sono a quilmetros de distncia, uma lembrana voltou a assombr-la.
Viu-se com Linda Ward e o pai. Devia ter quatro ou cinco anos, e havia uma festa em sua casa. Estava sentada no colo de Linda, num dos balanos na varanda, quando seu pai se aproximou. Dali em diante as lembranas ficaram confusas, mas ele deve ter dito algo que aborreceu a moa, pois Vitria se lembrava de t-la ouvido dizer que no era justo descontar suas frustraes numa criana, e que Vitria era a nica inocente naquela histria.
Ento, o pai chorou. Essa era a lembrana que ela havia enterrado, por no conseguir suport-la. No estava acostumada a demonstraes de sentimentos da parte dele.
O telefone tocando a seu lado interrompeu as lembranas. Atendeu rapidamente, grata por ser arrancada daquela situao que a confundia.
A voz de Zac soou suave e gentil do outro lado da linha.
	Tory? Como est se sentindo?
	Sentindo?
	Estava pssima a noite passada, e com dor nas costas esta manh  lembrou-a ele baixinho.  Melhorou?
	Ah, sim, melhorei.
Mentira. No estava nada bem. Sentia falta do marido. Zac vivia na mesma casa, faziam as refeies juntos, ele falava sobre seu trabalho, interesses, tudo. E, quanto mais fazia aquilo, mais distante parecia.
	A previso do tempo no  a das melhores.
Portanto, aconselho-a a repousar. Se a dor nas costas continuar, prometo lhe fazer uma massagem quando chegar.
Vitria lembrou-se de como ele estava bonito no caf da manh, usando um terno escuro com camisa azul-clara, os cabelos escuros penteados para trs, a pele bronzeada... Usava uma colnia deliciosa, com toques de limo e madeira.  Bom, nos veremos mais tarde  acrescentou ele.  Por enquanto, quero que se cuide. Um beijo.
Como Linda reagiria se fosse visit-la? O beb nasceria em trs semanas. Portanto, se quisesse ir, a hora era aquela.
Linda a recebeu surpreendentemente bem. Nunca foi uma mulher bonita, mas estava tima para a idade. Usava uma maquiagem discreta mas perfeita, e tinha os cabelos cortados impecavelmente, com alguns fios grisalhos misturados aos castanhos.
	Que bom rev-la, Vitria! Soube que o beb ser para breve. Tenho olhado todos os dias nos jornais, para ver se j nasceu.
	E mesmo?  Ela ficou surpresa e encantada.
	Claro!
Linda a conduziu at a sala de estar, com moblia antiga mas de excelente qualidade, em frente a uma linda lareira onde descansava um gato preto e branco. Vitria sabia que precisava falar, e depressa, antes que perdesse a coragem.
	Provavelmente, voc pensar que sou uma tola...  comeou a dizer, hesitante.  Mas  muito importante. Minha me me contou sobre voc e... meu pai.
	No tenho nada a esconder. O que deseja saber?
	No entendi metade do que mame disse, e sei que no  da minha conta, mas algo vem me incomodando.
Linda facilitou as coisas, aproximando-se e dizendo:
	Claro que  da sua conta.  Foi mais simples dali em diante. Aps Vitria terminar de falar, Linda ficou calada por um longo tempo antes de manifestar-se:  Vou preparar ch para ns, e ento conversaremos.
Falaram at a hora do almoo. Quando a mulher convidou-a para almoar, Vitria aceitou. Estava grata. Aprendera muitas coisas.
O rosto de Linda se iluminou ao falar do pai de Vitria.
	O casamento de seus pais foi arranjado. Duas famlias que se conheciam h anos e que queriam se unir pelo casamento dos filhos. Seu pai, que nunca tinha amado ningum de verdade, acabou concordando. Sua me era muito atraente. Mas, quando voltaram da lua-de-mel, ele percebeu que havia cometido um terrvel engano. Porm, voc j tinha sido concebida. Ns nos conhecemos alguns meses depois.
	E mesmo...
Linda a pegou pela mo antes de continuar.
	Sua me no planejou a gravidez. Seu pai dizia que foi um milagre voc ter nascido, j que Carol no gostava muito do lado "ntimo" do casamento. Mas, de qualquer forma, voc nasceu e ns no achamos justo que ele deixasse a famlia.
	Papai ficou com mame por minha causa? Mas ele nunca demonstrou o menor interesse por mim!
	Ele queria, mas sua me era perita em usar fraquezas como arma  disse Linda, amargamente.  Alm disso, seu pai no era homem de conseguir demonstrar afeto facilmente, e vivia consumido pela culpa. Achava que estava sendo infiel a voc, a mim e, claro, a sua me. Terminei nosso relacionamento diversas vezes, pelo bem dele. Mas a verdade  que no podamos viver um sem o outro. E Carol, na verdade, no se importava, desde que continuassem casados e que ele a deixasse viver como bem entendia. Pode-se dizer que at chegou a incentivar nossa ligao.
	Entendo.
	Quando voc foi para a escola, seu pai passou a ficar mais tempo comigo. Mas, infelizmente, ele se foi, levando todos os planos que fizemos para o futuro.
	E voc nunca mais se apaixonou?  perguntou Vitria calmamente, sentindo compaixo pela doce senhora.
Linda sorriu, tristonha.
	Seu pai foi o nico homem de minha vida, e sei que tambm fui a nica mulher na dele. ramos profundamente fiis um ao outro. Isso acontece, algumas vezes.
"Isso acontece, algumas vezes."
Os primeiros flocos de neve caam do cu carregado quando Vitria se despediu de Linda no final daquela tarde e entrou num txi com a cabea girando.
"Isso acontece, algumas vezes."
A frase no lhe saa da cabea. Sentia um cansao emocional, como se tivesse sofrido uma terrvel tragdia. Todos em sua famlia haviam sido afetados por aquela histria. Seus pais, presos a um casamento sem amor, carregando culpa, dor e confuso, tiveram a vida destruda. Ela tambm, pois tentou entender em vo o comportamento sem sentido dos adultos. Mas isso era passado, e agora Vitria podia entender melhor como as coisas haviam se passado.
A dor aguda na base da coluna aumentava, assim como a neve, que agora caa como uma cortina branca. Era lindo, pensou ela, maravilhada. A vida era linda. E no queria desperdi-la. O pai fora capaz de amar. Fora fiel a Linda, porque a amava. Seu erro foi se casar com a mulher errada.
O motorista blasfemou quando duas crianas atiraram bolas de neve no vidro do carro, mas Vitria nem sequer notou.
"Isso acontece, algumas vezes."
Com Zac acontecera! Amava-o intensamente, e sabia que ele sentia o mesmo. O pai, que julgara frio e distante, no era um mulherengo passando de caso em caso. Havia amado Linda Ward mais que a tudo e a todos, e morrera prematuramente.
Quanto a Zac, quisera cuidar dela durante todo o tempo, mesmo quando Vitria o rejeitou pela segunda vez. Estava disposto a esperar que confiasse nele plenamente, para poder participar de sua vida e da vida do filho. Agora, Vitria entendia isso.
Respirou fundo, olhando para a neve caindo l fora. Amava Zac. E cometeria um erro ainda maior que o de seu pai se o abandonasse. Essa era a verdade. Tinha medo de abrir o corao e deixar Zac entrar. Medo do poder que isso daria a ele, e de quanto ficaria vulnervel.
Pensou nisso durante todo o trajeto de volta, a dor nas costas aumentando a ponto de deix-la enjoada.
Passava das quatro quando o txi a deixou em casa. Antes de abrir a porta, Zac veio ao seu encontro.
	Posso saber onde esteve?  perguntou, enfurecido.
	Fui ver uma pessoa.
	Vim para c na hora do almoo para v-la, e a sra. Watt disse que no fazia ideia de onde tinha ido.
Ela lembrou-se do telefonema daquela manh, sentindo-se terrivelmente culpada.
	Voc disse que s chegaria depois das cinco. Lamento.
Sem dizer uma palavra, ele a ajudou a entrar.
	Telefonei para todos os conhecidos... e para o hospital. Pedi ajuda at a William.
	William?
	Liguei para saber se sabia de seu paradeiro, ele ficou to preocupado quanto eu. Portanto,  melhor ligar para seu amigo e tranquiliz-lo.
	E o que farei.
	Mas antes vai me contar o que de to importante tinha a fazer na rua num dia horrvel como hoje.
Vitria no sabia como comear a explicar por que era to importante falar com Linda.
	Eu precisava que ver uma pessoa.
	Homem ou mulher?  Parecia que, alm de preocupado, Zac estava com cime.
	Oua, estou prestes a ter um filho  respondeu ela com surpresa.  No est achando que eu...
	No sei mais o que pensar.  Zac tentou disfarar, mas no conseguiu.
Que tolice! Ambos pareciam dois tolos, mas a culpa era dela.
	Fui ver a ex-amante de meu pai.  Vitria sentou-se numa das poltronas perto da lareira.
 Precisava saber de uma coisa: Eles se amavam. De verdade, como... como ns.
 Ns?
	Tenho sido to tola...  Lgrimas vieram-lhe aos olhos, mas Vitria as conteve. No podia fraquejar naquele momento. Precisava falar.  Sei disso agora. Porque amo voc mais que tudo no mundo, e no quero perd-lo. No quero ficar numa casa separada, nem que nosso filho divida seu tempo entre ns. Sei sobre o apartamento de Richmond. Voc o encontrou e paga parte do aluguel.
	Tory?  Zac ajoelhou ao lado dela e a beijou, sussurrando palavras doces at que ambos tivessem lgrimas nos olhos.  No me deixe, Tory. Acho que enlouqueceria.
	No vou deix-lo... nunca mais.  Ela acariciou o contorno do rosto de Zac com mos trmulas.  Seja o que for que o futuro nos reserve, seja qual for o problema que tenhamos a enfrentar, o faremos juntos. Prometo.
	Voc  e ser a nica mulher em minha vida. Sabe disso, no sabe?  disse Zac docemente, beijando-lhe a palma da mo.
	Sei. Agora, sei.
	Filhos sero um presente maravilhoso. Mas, mesmo que fssemos apenas eu e voc, seria suficiente.  Ele a tomou nos braos novamente, beijando-a com paixo enquanto permanecia ajoelhado a seu lado.  Estava decidido a esperar quanto fosse preciso at que voc finalmente acreditasse em mim. Tenho amor bastante para ns dois. Jamais a deixaria partir.
	Tambm sei disso. Sem divrcio, lembra-se? O nome dos Harding no pode ser maculado.
	Ah...  Os olhos de Zac se estreitaram levemente enquanto ele sorria com malcia.  Tenho que lhe confessar uma coisa. Houve um divrcio na ilustre famlia Harding. Na verdade, mais de um. Mas, quando voc me pressionou, foi a nica desculpa que encontrei.
	Que vergonha, Zac Harding!
	Eu precisava ganhar tempo. Afinal, era minha nica arma.
	Falando em tempo...  Vitria o fitou, saboreando aquele momento.  Creio que o beb est a caminho.
A neve estava alta, minutos depois, quando eles saram para a paisagem de etrea beleza. Mas a tranquilidade do momento foi arruinada pelos protestos de Zac ao olhar a passagem bloqueada.
	Calma, dar tudo certo.  Vitria sorriu, mas depois, a dor que sentiu nas costas passou para o ventre com uma intensidade violenta.
	Tory? O que foi? O que est acontecendo?
Assim que a contrao cedeu, Vitria contemplou-lhe o rosto assustado, lembrando-se de algo que acontecera quando ele tinha dez anos. A me morrera dando  luz. E o parto tambm acontecera pouco antes do tempo previsto. Tentou sorrir.
	Estou bem. So as contraes. Isso  perfeitamente normal. Voc precisa tirar a neve da sada, para chegarmos  rua. Mas no h pressa.
	Venha, entre no carro.  Ele tinha a voz trmula e, aps acomod-la no banco de passageiros, enrolada num cobertor, limpou a sada feito um doido, jogando neve por todos os lados.
Outra contrao aconteceu cinco minutos depois. Vitria reuniu todo o seu autocontrole para ficar quieta e fazer os exerccios de respirao em vez de abrir a porta do carro e gritar para Zac se apressar.
Quando finalmente conseguiram sair, encontraram as ruas lotadas de londrinos corajosos, enfrentando o horrvel. Mas felizmente, nos arredores do hospital, o trnsito estava mais calmo.
	Um pouco de neve e a Inglaterra pra!  Zac queixava-se ferozmente.
Vitria viu o lado engraado da situao.
	Podemos contar esse episdio para nossos netos. Daremos boas risadas...  Encontravam-se a algumas quadras do hospital, e ela se sentia mais confiante.   claro que, se o parto acontecesse aqui no carro, seria muito mais emocionante...
	No brinque.
Zac sorriu. J podia ver as luzes do hospital, e, se fosse preciso, iria lev-la at l nos braos. Assim que parou em frente  maternidade, as con-traes vinham de trs em trs minutos.
Em pouco tempo, Vitria viu-se na sala de parto, com Zac a seu lado, angustiado.
	Agora falta pouco, sra. Harding. Est indo muito bem  disse a mdica, com um forte sotaque irlands, fazendo com que ambos respiras sem aliviados e rissem.
"Pouco" foi relativo. No fim de mais trs horas, Vitria estava pronta para fazer um voto de castidade. Mas, ento, quando decidiu que no suportaria mais, e que na contrao seguinte iria gritar, percebeu que estava na hora.
s nove e dez, tudo passou a acontecer mais rapidamente. Ela fez uma fora imensa. Em vez de sair lentamente, o filho de Zac veio ao mundo com a fora de um verdadeiro Harding. E era enorme. Mos e ps grandes, cabelos escuros que o faziam parecer ter semanas ao invs de segundos de vida.
	 um menino, Tory!  O tom de Zac fez com que a mdica ficasse com os olhos cheios de lgrimas, enquanto cortava o cordo umbilical e entregava o beb enrolado numa manta para Vitria.
	Ol, meu anjo...
O beb bocejou e olhou para a me, como se quisesse perguntar: "Como cheguei aqui? Quem e vocer
Em seguida, Zac o segurou, levando Vitria s lgrimas antes de pass-lo  enfermeira que o examinou e pesou.
	Como vai cham-lo?  perguntou a mdica, querendo escrever o nome na pulseira do beb.
	James Zachary.
Vitria sorriu ao ouvir Zac responder. James era o nome de seu pai. Naquele momento, lhe pareceu uma homenagem justa.
	Ele  lindo, Tory. Obrigado, meu amor  disse ele, sentado-se na beirada da cama.
	Estou feliz, querido. Te amo muito...
Vitria disse aquilo sem medos nem reservas, apenas com um amor que antecipava os anos de alegria que teriam pela frente. Criariam sua prpria famlia, os filhos se sentiriam amados e desejados, frutos do profundo amor dos pais.
Havia perdido tempo demais com traumas do passado. Agora, com amor e compreenso, faria Zac entender que no estava mais sozinho. Que podia contar com ela, para o que fosse. O futuro era de ambos, e seria glorioso.

FIM

DICAS

BOM E MAU COMPORTAMENTO
As crianas costumam ter um comportamento dentro do aceitvel quando esto bem e se sentem felizes. Mas toda criana tem seus dias.  comum ela querer testar seus limites, e os dos pais, para ver at onde pode ir. O mau comportamento tambm  uma forma de chamar a ateno sobre si. A fase de maior conflito ocorre em geral entre os dois e trs anos, quando choros e crises de nervos so a regra.
Como lidar com o mau comportamento
A principal regra  agir rpido, interferir de imediato e remover a origem do problema: tire a comida que est sendo jogada, o brinquedo que causou a briga, ou pegue seu filho e diga-lhe um firme "no". Ao mesmo tempo distraia a ateno dele com outra atividade ou brinquedo. No fique zangada ou nervosa; seja apenas coerente, fazen-do-o perceber que no deve agir daquela forma.
Alguns tipos de mau comportamento, como choramingar e reclamar, devem ser ignorados. Se agindo dessa forma seu filho nunca obtm uma resposta de voc, nem vence a discusso, ele logo desiste.
Mesmo os acessos de raiva devem ser ignorados. Voc pode desviar a ateno dele se souber reconhecer quando h uma crise a caminho, mas, depois que ele estiver gritando e rolando pelo cho, fique tranquila e continue com o que estava fazendo. Se preciso, coloque-o em outro lugar da casa at que ele se acalme.
Como recompensar o bom comportamento
A melhor recompensa para seu filho na fase pr-escolar  seu tempo, seu carinho e sua ateno. Um elogio, um afago, uma histria contada com ele no colo, tudo isso faz a criana se sentir bem.
 mais fcil dar ateno  criana quando ela se comporta mal do que ao contrrio, quando voc simplesmente acha que pode relaxar. Mas por certo voc no deixa de fazer alguma coisa quando seu filho comea a puxar e derrubar latas de uma prateleira no supermercado.
A recompensa com elogios e afeto pelo bom comportamento  muito mais eficiente: "Que bonzinho que voc  de esperar aqui to quietinho", por exemplo. Desse modo, voc estimula o comportamento que deseja de seu filho e lhe mostra que  melhor agir bem com as pessoas.
Punies
Se tiver de punir a criana, faa-o imediatamente, se quiser que isso tenha algum efeito. Ameaas para o futuro, suspenso de presentes ou privilgios, so inteis, alm de injustos com a criana: quando ela receber o castigo, no vai lembrar e muito menos entender por que est sendo castigada.
 Quando a criana se comporta mal seguidamente ou a situao fica fora de controle, um castigo imediato que ela logo entende  ficar afastada por um curto perodo de tempo para se acalmar. Uns quinze minutos sozinho, mas em um lugar seguro, bastam para seu filho se esquecer do que queria e para voc se acalmar.
Devo bater em meu filho?
Esse tipo de punio geralmente  um sinal de que voc perdeu a pacincia e no  uma boa maneira de lidar com o mau comportamento.
A punio no evita que seu filho repita o que fez. Ento  provvel que voc bata com mais fora da prxima vez e, o que  pior, ensina que a fora fsica  uma forma vlida de obrigar algum a fazer o que se quer.
Para no perder a pacincia
Por mais hbil que tenha se tornado para lidar com seu filho, sempre h dias em que o comportamento dele  insuportvel e voc percebe que vai perder o controle.
A soluo  simples: leve-o para passear. Com qualquer tempo, uma ida ao parque, s lojas ou  casa de um amigo mais tolerante vai distrair a ambos e ajudar a recuperar a calma e o senso de humor.
Como lidar com uma criana agressiva
Toda criana pequena briga s vezes, especialmente quando est cansada ou aborrecida, e os meninos so, em geral, mais agressivos. Se as brigas sarem do controle, interfira sem pestanejar:
-	Separe as crianas.
-	Distraia-as com algum outro jogo ou mudando de ambiente.
-	No tome partido, pois em geral  imposvel saber quem est certo ou errado nessas situaes.
Se seu filho morder uma outra criana:
-	D toda a sua ateno  que foi mordida.
-	Coloque seu filho em outro lugar, sozinho, mas em segurana, cerca de quinze minutos.
Seu filho certamente vai tomar coisas de outras crianas, quando comear a brincar em grupo, mas, com sua ajuda, ele logo aprender a partilhar e a conviver. Algumas crianas continuam rspidas, e isso as torna, cedo ou tarde, mal-vistas. Para o bem de seu filho, ensine-o a ser gentil com os outros.
-	Faa de si prpria um modelo, sendo gentil, paciente e amorosa em relao a ele.
-	Deixe claro, em suas atitudes de punio, que  do comportamento que voc no gosta e no dele.
-	No deixe de intervir para deter seu filho, se estiver batendo em outra criana. Aja com firmeza, mas sem gritar ou ser agressiva.
-	No ceda quando ele quiser obter algo agindo de modo agressivo ou desagradvel, pois vai fazer o mesmo toda vez que quiser algo.

HELENBROOKS mora Northantonshi-re com o marido e trs filhos. Alem de se dedicar aos deveres de esposa e  educao dos filhos adolescentes, ela  um dos membros mais ativos na comunidade local, que luta pela melhoria e desenvolvimento de sua regio. Seus hobbies pre-diletos so a leitura e a jardinagem e seu grande sonho de se tornar escritora s se concretizou quando teve coragem suficiente para enviar um de seus livros  nossa redao. Da por diante Helen nunca mais parou.
